Você é o retrato da sua fé

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No Gênesis lemos: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; (…) E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou”(1) Por meio dessa e de outras escrituras, sabemos que, quem olha para o corpo do homem, vê a semelhança da imagem de Deus. Porém,  estas escrituras falam de muito mais que a aparência física. Em “A Família: Proclamação ao Mundo”, a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze Apóstolos declararam: “Cada indivíduo é um filho (ou filha) gerado em espírito por pais celestiais que o amam e, como tal, possui natureza e destino divinos”(2). Nossa natureza é divina! O Presidente John Taylor ensinou: “Quem é [o homem]? (…) Ele não é apenas o filho do homem, mas é também o filho de Deus. Ele é um Deus em embrião”(3).

Sabemos que devemos honrar nossa herança de semelhança física do Pai Celestial, cuidando e nutrindo nosso corpo, respeitando-o como a um templo(4). Mas, e quanto à nossa herança espiritual? Como podemos desenvolver nosso potencial divino? Entre os muitos princípios, leis e convênios presentes na doutrina do evangelho, um deles é, em especial, essencial nesse processo e define o quanto somos semelhantes ao nosso Criador: a fé! Cada um de nós é o retrato de sua fé e isso diz o quanto temos progredido para que possamos, um dia, nos tornar a plena imagem espiritual de Deus.

Há muitas definições para a fé. No Guia para Estudo das Escrituras, aprendemos que fé é “ter confiança em alguma coisa ou em alguém”(5). Embora a fé possa ser depositada em qualquer coisa ou pessoa(6), “para levar à salvação, a fé deve ser centralizada em Jesus Cristo”(7). Sendo o primeiro princípio do evangelho(8), “a fé tem o poder de desanuviar o conhecimento das verdades eternas”(9) e, assim, nos capacitar a fazermos o que é a vontade do Senhor.

O Élder Bruce R. McConkie ensinou que “a fé é um dom de Deus concedido como recompensa pela retidão pessoal. Ela sempre é concedida quando a retidão está presente, e quanto maior for a obediência às leis de Deus, maior será a investidura de fé”(10). Assim, vemos que a fé é aumentada com o aumento da retidão. O contrário também é verdadeiro, pois a iniquidade diminui a fé. Mas, que tamanho a fé precisa ter para produzir milagres? O Salvador Jesus Cristo disse que, para quem tem a fé “como um grão de mostarda (…) nada [é] impossível”(11).

A retidão – o alimento da fé – é alcançada e demonstrada pela obediência. A obediência – a primeira lei dos céus(12) – deve ser exercida, não apenas imaginada. Néfi ensinou esta verdade com muita clareza ao declarar sua obediência ao seu pai: “Eu irei e cumprirei as ordens do Senhor (…)”(13). Ir! Cumprir! Obedecer é agir. Logo, a fé é um princípio de ação! Lemos que “a fé sem as obras é morta”(14), mas o Presidente Dallin H. Oaks nos lembrou que “as obras sem a fé são ainda mais mortas”(15). Isto é assim porque “a fé [coopera] com as (…) obras, e (…) a fé [é] aperfeiçoada pelas obras”(16). Sem a ação, não há fé plena, ativa, apenas uma crença passiva, que é importante como começo, mas insuficiente para produzir a salvação. É por meio das ações que demonstramos nossa fé.

Gostaria de abordar duas maneiras de demonstrarmos a nossa fé por meio de nossas ações.

Aprender

Os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo querem aprender e buscam conhecimento espiritual diário. O estudo, a meditação e a oração são a base do aprendizado espiritual. Quando estudamos e aprendemos a doutrina verdadeira, somos protegidos da má influência de doutrinas falsas.

No processo de aprendizado das verdades eternas, é importante ter cuidado com algumas armadilhas que podem existir no caminho. Querer entender todas as coisas rapidamente, é uma dessas armadilhas. O Senhor ensina “ao fiel linha sobre linha, preceito sobre preceito”(17). A paciência para aprender passo a passo, “um pouco aqui, um pouco ali”(18) é um dos atributos requeridos a quem deseja ter o conhecimento da doutrina de Cristo.

Outro perigo é o de querer aprender tudo. Aceitar que há verdades que não foram reveladas e que não o serão nesta vida, é essencial para compreendermos que, embora busquemos aprender a doutrina, nosso conhecimento será sempre limitado em comparação com o conhecimento do próprio Senhor. Simplesmente não há respostas para todas as perguntas. A fé não requer estas respostas. Porém, para todas as questões referentes à nossa salvação e exaltação, o Senhor nos deu o conhecimento necessário. Quando decidimos olhar além do marco, podemos buscar conhecimento em fontes não autorizadas, e receberemos respostas dadas por pessoas infiéis e sem fé, lobos vestidos de ovelhas, que, em sua vaidade intelectual, apresentam “filosofias dos homens mescladas com escrituras”(19). Quem se aventura com estes falsos mestres, alguns deles infiltrados entre os santos dos últimos dias, enfraquece sua fé em Jesus Cristo e na Restauração e, progressivamente, é levado à apostasia pessoal.

Ao buscarmos conhecimento, como uma ação de fé, devemos separar claramente o que é essencial ao nosso progresso eterno e o que é apenas curiosidade. Saber identificar e diferenciar estas posições nos protege de um dos principais desafios do aprendizado: o desvio de foco. O Presidente M. Russell Ballard ensinou: “Há momentos em que fiéis santos dos últimos dias e pesquisadores sinceros passam a centrar a atenção nos ‘complementos’ em vez de se concentrar nos princípios fundamentais. Isto é, Satanás tenta desviar nossa atenção da mensagem simples e clara do evangelho restaurado. (…) Perguntas importantes centram-se no que mais importa: o plano do Pai Celestial e a Expiação do Salvador. Nossa busca deve levar-nos a ser cheios de bondade, gentileza, amor, perdão, paciência e a sermos discípulos dedicados”(20)

A busca pelo conhecimento do evangelho deve ter como propósito nos dar ou ampliar nosso testemunho. Morôni ensinou que não recebemos um “testemunho senão depois da prova de [nossa] fé”(21) Quando estamos focados em fazer a vontade do Senhor, “é bom [sermos instruídos]”(22), mas, quando queremos o conhecimento pelo conhecimento, ele se torna “insensatez e não [nos] traz proveito”(23).

Servir

O Presidente Joseph Fielding Smith ensinou: “Se quisermos uma fé viva, permanente, devemos ser ativos na execução de todo dever como membros desta Igreja”(24).

Às vezes, parece que a tarefa do serviço na Igreja é demasiado grande para a nossa capacidade. O Élder Wilford W. Andersen, dos Setenta, explicou que “parece haver dois níveis distintos de fé. O primeiro nível é a fé para tentar (…). O segundo nível é a fé para realizar. (…)”(25)  Ele explicou que a “fé para tentar” desaparece assim que as coisas ficam difíceis, mas que a “fé para realizar” nunca desanima. Ele contou uma experiência pessoal, que ilustra este conceito:

“Quando fui chamado como presidente da Estaca Mesa Arizona Maricopa, o Élder W. Mack Lawrence, na época Setenta Autoridade Geral, convidou a mim e à minha mulher para o escritório do Presidente da Estaca e fez o chamado. Aceitei obedientemente. Em seguida, ele nos convidou para entrar na sala do sumo conselho e, em espírito de oração, refletir sobre alguns homens para recomendar como meus conselheiros. Quando entrei na sala, vi as fotos de todos os presidentes que anteriormente haviam servido na estaca desde que foi organizada e fiquei desanimado. Eles foram grandes líderes tanto na Igreja quanto na comunidade. Olhei para minha mulher e disse: ‘Kathleen, acho que não consigo fazer isso. Não estou no nível deles’. Ela disse: ‘Bem, não diga isso para mim. É melhor falar com o Élder Lawrence’. Para minha surpresa, quando lhe disse que achava que não poderia realizar o chamado, o Élder Lawrence respondeu: ‘Bem, suponho que você esteja certo’. Mas em seguida ele disse: ‘Você não pode realizá-lo, irmão Andersen, mas o Senhor pode. Ele tem o poder de realizar o trabalho Dele e, se você for digno e trabalhar com afinco, Ele o realizará. Você vai ver’. E foi o que Ele fez.”(26)

No serviço do reino, é importante saber que o Senhor não nos chama por causa da nossa capacidade, mas por causa da Sua capacidade. Compreender isso é sabedoria. Aceitar isso é humildade. Em alguns momentos, no serviço ao Senhor, seremos confrontados com desafios que poderão parecer intransponíveis. Não importa a natureza ou tamanho do desafio, ele não tem o poder de nos impedir de servir e não podemos esmorecer por causa dele. Apenas poucas horas antes da grande agonia no Getsêmani, da prisão injusta, da tortura, da humilhação pública e da morte na cruz, Jesus Cristo, ciente do que aconteceria, manteve-se focado em Sua obra e pacientemente serviu, ensinando, lavando os pés e administrando o sacramento aos seus Apóstolos. Sua fé no Pai Celestial estava acima dos desafios que tinha à frente e Ele demonstrou isso por Suas ações.

Ao falarmos sobre nossos deveres como membros da Igreja, logo pensamos no serviço realizado em nossos chamados eclesiásticos e esquecemos do mais importante dos chamados que recebemos nesta vida: a família. O Presidente James E. Faust falou sobre esta responsabilidade de serviço: ” Ser pai ou mãe não é somente um grande desafio, [é] um chamado divino. E uma realização que requer consagração. (…) Certamente não há trabalho mais importante a ser feito neste mundo do que preparar nossos filhos para serem tementes a Deus, felizes, honrados e produtivos. (…) O ensino, a educação e o treinamento dos filhos exigem mais inteligência, compreensão intuitiva, humildade, força, sabedoria, espiritualidade, perseverança e trabalho árduo do que qualquer outro desafio na vida””(27)

O Presidente David O. McKay declarou que [a paternidade e a maternidade são] “a maior prova de confiança que foi dada ao ser humano”(28).  Os chamados divinos da paternidade e da maternidade requerem fé. O exercício da paternidade e da maternidade de acordo com o plano de Deus para Seus filhos, é a demonstração dessa fé.

O Élder Neil L. Andersen disse que “o futuro de [nossa] fé não é obra do acaso, é uma escolha”. Assim, o retrato de nossa fé, ou, a imagem espiritual de Deus em nós, é o resultado de nossa escolha pessoal. Felizmente, nossa pintura é uma obra em permanente aperfeiçoamento. Que possamos, com coragem, demonstrar nossa fé por meio de nossas ações, aprendendo e servindo.

Referências

(1) Gênesis 1:26-27
(2) A Família: Proclamação ao Mundo, 23 de setembro de 1995
(3) Presidente John Taylor, The Gospel Kingdom, pp. 52–54
(4) 1 Coríntios 3:16
(5) Guia para Estudo das Escrituras, “Fé”
(6) Regras de Fé 1:11
(7) Guia para Estudo das Escrituras, “Fé”
(8) Regras de Fé 1:4
(9) Bispo Gérald Caussé, “Manter a Fé em Meio a um Mundo Confuso”, A Liahona, agosto de 2012
(10) Élder Bruce R. McConkie, Mormon Doctrine, 2ª ed., 1966, p. 264
(11) Mateus 17:20
(12) Presidente Joseph F. Smith, Deseret News, 12 de novembro de 1873, p. 644.
(13) 1 Néfi 3:7
(14) Tiago 2:20
(15) Presidente Dallin H. Oaks, “Challenges to the Mission of Brigham Young University”, Conferência de Liderança da BYU, 21 de abril de 2017, p. 8.
(16) Tiago 2:22
(17) Doutrina e Convênios 98:12
(18) Isaías 28:10
(19) Élder Jeffrey R. Holland, “Mestre, Vindo de Deus”, Conferência Geral, abril de 1998
(20) Presidente M. Russell Ballard, “Fiquem no Barco e Segurem-se!”, Conferência Geral, outubro de 2014
(21) Éter 12:6
(22) 2 Néfi 9:29
(23) 2 Néfi 9:28
(24) Presidente Joseph Fielding Smith, Doutrinas de Salvação, comp. por Bruce R. McConkie, 3 vols., 1994, vol. II, p. 307
(25) Élder Wilford W. Andersen, “Dois níveis de fé”, A Liahona, janeiro de 2019
(26) Élder Wilford W. Andersen, “Dois níveis de fé”, A Liahona, janeiro de 2019
(27) Presidente James E. Faust “O Maior Desafio do Mundo – Ser Bons Pais”, Conferência Geral, outubro de 1990
(28) Presidente David O. McKay, “The Responsibility of Parents to their Children”, pamphlet, Salt Lake City: The Church of Jesus Christ of Latter Day Saints




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