Trilhar o caminho do convênio até o fim: Uma visão da Conferência Geral de abril de 2019

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Ao final da Conferência Geral de abril de 2019 de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, meus sentimentos foram (e continuam sendo) de alegria pelo que vi e ouvi naqueles dias repletos de clareza e confirmações. Após serena meditação, e de ter compartilhado meus sentimentos com a minha família, decidi abordar aqui estas impressões pessoais, com o propósito de, talvez, poder ajudar outros.

Nos dias que antecederam a conferência, as redes sociais (virtuais ou não) foram inundadas de conversas sobre diversos rumores de “mudanças” que seriam anunciadas pelas autoridades da Igreja. “O período do serviço missionário será encurtado”, informaram alguns. “Jovens receberam chamados missionários sem o tempo de serviço, que somente será informado na conferência, pelo Presidente Russel M. Nelson”, disseram outros. “A Palavra de Sabedoria sofrerá um ajuste e o consumo de café será autorizado”, “A China será aberta para o proselitismo” e vários outros boatos, foram fortemente divulgados, causando um frisson sem precedentes entre vários membros da Igreja, especialmente os mais jovens.

O fato de as duas conferências gerais imediatamente anteriores terem sido cheias de anúncios de ajustes em diversas áreas da Igreja e da vivência do evangelho, parece ter gerado toda essa expectativa para várias pessoas, que, pareciam esperar que o ritmo implementado pelo Presidente Russel M. Nelson no primeiro ano à frente da Igreja seria cada vez mais intensificado e cheio de novidades e que esta era a prova de que a Igreja estaria “viva”. Porém, o que determina o desenvolvimento da Igreja não é o ritmo ou volume de suas mudanças ou ajustes, mas a constância e direção corretas em que ela segue.

Quando a Conferência Geral parece se resumir ao momento dos anúncios, pode-se perder o foco no que realmente importa. A santidade da doutrina e dos princípios contidos nas mensagens dos oradores deve ser o foco real em uma conferência. Os ajustes e as mudanças são importantes. Porém, quando aguardamos por eles por mera curiosidade ou para poder dizer um “eu sabia”, deixamos de enxergar e apreciar o que há de espiritual e eterno neles. Todos os ajustes anunciados nas recentes conferências têm um fundo espiritual e doutrinário, com o propósito maior de nos levar à exaltação. A Primeira Presidência não faz estes ajustes apenas para tornar mais divertido ou emocionante ser um membro da Igreja, nem faz os anúncios na conferência para nos dar a oportunidade de termos um aumento semestral de estímulo como santos dos últimos dias. Nós também devemos ter constância e direção corretas, sem precisarmos receber injeções de ânimo a cada conferência.

Pela primeira vez na história da Igreja, foram divulgados os assuntos tratados na Sessão de Liderança da Conferência Geral, que é realizada nos dias que antecedem a conferência propriamente dita. Quando houve a divulgação destas informações antes do início da conferência, isto foi o aviso claro de que não haveria qualquer anúncio durante as demais sessões. Porque alguns anúncios seriam dados previamente e outros durante as sessões da conferência? Não faria sentido algum. Se podemos contar como única exceção, o Presidente Russel M. Nelson informou apenas na última sessão da conferência, a decisão de serem construídos oito templos em sete países.

É importante lembrar que todos os ajustes anunciados no último ano ainda estão sendo implementados na Igreja em todo o mundo. As pessoas e organizações estão buscando viver plenamente de acordo com estes ajustes e isto demanda tempo e esforço individual, familiar e mesmo congregacional. Esquecer este processo já iniciado e tão importante, para concentrar energia em especulações de mudanças, pode nos fazer perder a base do evangelho: a fé. No caso, a fé no que já nos foi dado e no divino poder da revelação. São a doutrina e os princípios ensinados, e não os anúncios, que nos levarão à exaltação. Logo, é no processo de compreensão destes ensinamentos que devemos nos concentrar.

O processo para compreender o real significado dos ensinamentos da conferência exige que os avaliemos como um todo, e não apenas parte deles. Os discursos da conferência complementam-se, formando um grande mosaico de pedaços que se encaixam perfeitamente e traduzem um sentido único. Não é possível assistir à conferência como se vai à feira, selecionando “produtos” pela aparência e descartando outros por não parecerem tão atrativos (talvez pelo tema, talvez pelo orador, ou por outros fatores). O alerta do Profeta Joseph Smith pode muito bem se encaixar aqui: “Que nenhum homem as considere coisas pequenas; porque muito há no futuro, com relação aos santos, que depende dessas coisas.”(1) Todos os discursos são importantes e necessários à formação da compreensão do ensinamento principal. O Presidente Russel M. Nelson falou sobre isso em seu discurso de encerramento da conferência: “Não foram atribuídos temas aos oradores. Cada um deles orou por revelação pessoal ao preparar suas mensagens. Para mim, é notável como esses temas parecem se encaixar tão bem uns aos outros. Ao estudá-los, procure aprender o que o Senhor está tentando ensinar a você por meio de Seus servos.”(2)

Embora a conferência seja um momento de grande expectativa e emoção, com os ensinamentos sendo recebidos em um ambiente pessoal espiritual favorável, pois que nos preparamos para recebê-los e estamos dispostos e desejosos de ouvi-los, não é durante a conferência que estes ensinamentos são aplicados. É no dia a dia da rotina da vida, nem sempre amigável ou espiritualmente favorável, que somos testados em nossa decisão de estabelecer a prática real e sincera destes ensinamentos. É aí que o valor da conferência pode ser verificado em nossas vidas. Não é possível ter uma experiência prática adequada sem a obtenção permanente e diligente dos ensinamentos. Isso inclui atenção, zelo, foco e determinação não apenas durante o período favorável da conferência, mas também após o seu final, nos dias, semanas, meses e anos que se seguirem, mesmo quando a lembrança da conferência não estiver mais em nossas mentes.

É claro que, tanto a percepção quanto a aplicação dos ensinamentos, são particulares de cada indivíduo e de cada família. Não é apenas a doutrina que determina se haverá prosperidade espiritual decorrente dela. A mente e o coração sobre os quais a doutrina é depositada fazem grande diferença. A mente e o coração precisam ser “boa terra”, para que a doutrina dê “fruto”, “um grão [produzindo] cem, outro sessenta e outro trinta”(3).

Nesta conferência, em especial, recebemos um volume inacreditável de apelos urgentes por simplicidade e ação. Do primeiro ao último discurso, não importando quem seria o orador, a tônica permaneceu: mais fé, mais obras, mais consagração, mais força espiritual, mais gratidão, mais pureza, mais autodomínio, mais esperança, mais retidão, mais arrependimento, mais perdão, mais humildade, mais vida cristã, mais amor ao próximo, mais vivência plena do evangelho no lar!(4) A essência do que foi esta conferência pode ser resumida nas palavras do Presidente Russel M. Nelson, ao relatar sobre a conversa que teve com sua filha, falecida recentemente: “Falamos do que realmente importa: Convênios, ordenanças, obediência, fé, família, fidelidade, amor e vida eterna”.(5)

A expressão “caminho do convênio” foi citada diversas vezes em vários discursos da conferência. Estamos no caminho do convênio quando recebemos as ordenanças salvadoras e seus respectivos convênios. Começando com o batismo, até chegarmos ao selamento – a única ordenança que não é individual e o único convênio que é feito com Deus e com outra pessoa – devemos buscar fazer e cumprir todos os convênios que o Senhor nos ordenou. Isto nos dará felicidade nesta vida e a vida eterna. Manter-nos no caminho do convênio é manter-nos fiéis ao que foi prometido, mesmo em momentos difíceis nos quais pode nos parecer impossível continuar. A irmã Sharon L. Eubank ensinou nesta conferência: “Dê mais alguns passos no caminho do convênio, mesmo que seja muito escuro para ver muito longe. As luzes vão voltar.”(6)

Entre as coisas que podemos e devemos fazer para estarmos no caminho do convênio, tratarmos a reunião sacramental e a ordenança do sacramento como sagrados é essencial. A ordenança sacramental tem o poder de nos exaltar, se compreendemos o seu real significado e o que a faz ser tão importante: o sacrifício expiatório do Salvador Jesus Cristo. Élder Jeffrey R. Holland(7) chamou a atenção para alguns aspectos que muitos de nós temos adotado (e muitos dos demais têm passivamente aceitado, talvez por medo de ferir susceptibilidades), que estão modificando, para pior, a nossa percepção desta reunião e ordenança, tornando-os comuns: vestimenta inadequada “para participar de uma ordenança sagrada”, atrasos constantes e conversas no “santuário [salão sacramental] de nossos edifícios [capela]”. “Não faças tu comum ao que Deus purificou”(8), disse o Senhor a Pedro. Não disse Ele o mesmo a todos nós nesta conferência, por meio do Élder Holland?

O emocionado convite do Élder Brook P. Hales(9) para que não percamos a esperança e a fé, quando o Senhor não nos responder no tempo e da forma que desejamos, mesmo que a resposta não venha nesta vida, nos mostrando que Ele é o Senhor conhecedor de todas as coisas e que Sua onisciência é nossa segurança de que estamos sendo cuidados, mesmo quando não pareça, deu a muitos o alento necessário diante de desafios que podem parecer intransponíveis ou dores (físicas, emocionais e espirituais) que parecem não ter fim. Manter-nos no caminho do convênio nos levará a encontrarmos as soluções de nossos problemas, mesmo que seja na vida futura.

Em seu apelo vigoroso a todos os homens para que façam o melhor e sejam melhores, o Presidente Russel M. Nelson indicou a todos os portadores do Sacerdócio a chave para manterem-se no caminho do convênio: “Seu primeiro e mais importante dever como portador do sacerdócio é amar e cuidar de sua esposa. Torne-se um com ela. Seja seu parceiro. (…) Ore para ter seu coração sintonizado com o coração de sua esposa. Procure fazê-la feliz. Procure seu conselho e a ouça.”(10) É óbvio que, para cumprir estes mandamentos, é preciso ter a coragem de cumprir primeiro o sagrado mandamento de ter uma esposa. Este certamente é um passo importante na tarefa de “ser melhor” e “fazer o melhor”.

Falando a todos, nosso amado profeta declarou, com um semblante que demonstrava toda a urgência de sua súplica: “Faça o trabalho espiritual para descobrir por si mesmo e, por favor, faça isso agora. O tempo está se esgotando.”(11) O sentimento de urgência deve nos levar à ação e à firmeza de propósito. Se o encararmos com sabedoria, este sentimento de urgência não nos trará angústia ou culpa. A declaração inequívoca de que “o fim se aproxima, os tempos expiram”(12), traz paz e tranquilidade àqueles que, mantendo-se no caminho do convênio, vencem as fraquezas, suportam as adversidades com alegria, servem com valentia, aumentam sua fé, e ajudam seus irmãos a fazerem o mesmo. A clara visão da simplicidade ao viver princípios e convênios como fonte da vida eterna nos alenta e dá esperança. Como disse o Presidente Dallin H. Oaks: “Para nós, o fim está sempre no caminho do convênio, por meio do templo, para a vida eterna, que é o maior de todos os dons de Deus.”(13)

Nesta conferência, o povo do Senhor foi apresentado ao último nível de purificação: o viver fielmente e com humilde simplicidade a plenitude do evangelho de Jesus Cristo, ancorado no arrependimento como processo contínuo, como tão bem ensinou o Presidente Russel M. Nelson: “Nada é mais libertador, mais enobrecedor ou mais crucial para nosso progresso individual, do que um enfoque constante e diário no arrependimento. (…) Quando acompanhado da fé, o arrependimento permite que tenhamos acesso ao poder da Expiação de Jesus Cristo.”(14) Acredito que esta conferência será um marco divisor para quem permanecerá e para quem ficará pelo caminho. O refinamento espiritual foi exigido de maneira clara, sem meios-termos.

Tudo o que temos na Igreja é bom e importante, mas, dentre todas as coisas, há as que são “ainda melhor[es], excelente[s]”.(15) As festas, os bailes, os esportes, os cursos extras, são todos bons e muitos bons, mas nenhum deles tem a excelência do poder de exaltar a quem quer que seja. A doutrina, os princípios e os convênios, sim. Não é possível que alguns continuem encarando a Igreja como um clube de final de semana, onde encontram bons amigos e se contentam em contar como foi a sua semana, e passem anos sem realizar convênios no templo, por si e por seus entes queridos. O Presidente Russel M. Nelson ensinou: “O que é exigido para que uma família seja exaltada para sempre? Qualificamo-nos para este privilégio ao fazermos convênios com Deus, cumprirmos estes convênios e recebermos as ordenanças essenciais.”(16)

Recentemente, o Presidente Russel M. Nelson disse que os membros da Igreja deveriam “[tomar] suas vitaminas”(17) em preparação para o que ainda estaria por vir. Pelo que vi e ouvi nesta conferência, receio que o Presidente Russel M. Nelson tenha colocado muito claramente que o tempo de tomar vitaminas e esperar já passou. O tempo é de ação pessoal e familiar. Que atendamos a voz do nosso Profeta!

Referências:

(1) D&C 123:15
(2) “Considerações Finais”, Presidente Russel M. Nelson, Conferência Geral, abril de 2019
(3) Mateus 13:8
(4) “Mais Vontade Dá-me”, Hinos, 75
(5) “Vem, e Segue-Me”, Presidente Russel M. Nelson, Conferência Geral, abril de 2019
(6) “Cristo: A luz que brilha na escuridão”, Sharon L. Eubank, Conferência Geral, abril de 2019
(7) “Eis o Cordeiro de Deus”, Élder Jeffrey R. Holland, Conferência Geral, abril de 2019
(8) Atos 10:15
(9) “Respostas às Orações”, Élder Brook P. Hales, Conferência Geral, abril de 2019
(10) “Podemos Fazer Melhor e Sermos Melhores”, Presidente Russel M. Nelson, Conferência Geral, abril de 2019
(11) “Vem, e Segue-Me”, Presidente Russel M. Nelson, Conferência Geral, abril de 2019
(12) “O Fim Se Aproxima”, Hinos, 181
(13) “Onde Isso Vai Levar?”, Presidente Dallin H. Oaks, Conferência Geral, abril de 2019
(14) “Podemos Fazer Melhor e Sermos Melhores”, Presidente Russel M. Nelson, Conferência Geral, abril de 2019
(15) “Bom, Muito Bom, Excelente”, Presidente Dallin H. Oaks, Conferência Geral, outubro de 2007
(16) “Vem, e Segue-Me”, Presidente Russel M. Nelson, Conferência Geral, abril de 2019
(17) “Latter-day Saint Prophet, Wife and Apostle Share Insights of Global Ministry”, Church Newsroom, outubro de 2018

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