Sobre pastores e ovelhas

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Certamente uma das principais – se não a principal – referência ao evangelho, seja a figura do pastor e suas ovelhas. O símbolo do pastor cuidadoso, pronto a defender suas ovelhas e dar-lhes alimento e segurança, e das ovelhas, obedientes, atentas à voz de seu pastor, tem sido utilizado há milênios para representar a relação entre o Senhor e Seus filhos. Davi declarou: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.”(1) O “nada” nesta escritura é o pleno reconhecimento de que o Senhor, seu pastor, é a fonte de seu sustento, em todas as áreas. O próprio Jesus Cristo se identificou como o “bom pastor”, que “dá a sua vida pelas ovelhas”.(2)

Na minha infância, minha mãe possuía um LP intitulado “Cem Ovelhas”, e esse era também o título da música principal do disco, do cantor Ozeias de Paula. Os anos se passaram, mas eu nunca esqueci os versos daquele clássico da música cristã:

“Eram cem ovelhas, juntas no aprisco
Eram cem ovelhas, que amante cuidou
Porém numa tarde, ao contá-las todas
Lhe faltava uma, lhe faltava uma e triste chorou

As noventa e nove, deixou no aprisco
E pelas montanhas, a buscá-la foi
A encontrou gemendo, tremendo de frio
Curou suas feridas, pôs logo em seus ombros e ao redil voltou

Essa mesma história, volta a repetir-se
Pois muitas ovelhas, perdidas estão
Mas ainda hoje, o pastor amado
Chora tuas feridas, chora tuas feridas
E quer te salvar

As noventa e nove, deixou no aprisco
E pelas montanhas, a buscá-la foi
A encontrou gemendo, tremendo de frio
Curou suas feridas, pôs logo em seus ombros e ao redil voltou”
(3)

Como diz este antigo hino, “o pastor amado chora tuas feridas”. Esse é o papel do pastor – do verdadeiro pastor – sentir falta, buscar a ovelha perdida, curar suas feridas e trazê-la de volta, em segurança. Quando uma ovelha está em perigo, o verdadeiro pastor a socorre sem demora. E chora por sua dor. Ele está pronto e disposto a se sacrificar pelas ovelhas que recebeu como mordomia. E coloca o seu próprio conforto e segurança em segundo plano.

Há muitos anos, assisti a um filme do qual eu não lembro o nome nem a história. Mas, há uma cena daquele filme que nunca saiu de minha mente. A cena era a seguinte: Alguns homens, ao chegarem a um local, deixaram seus animais na porta, presos, cansados, famintos e sedentos, e entraram para se alimentarem e se divertirem. Mas um homem ficou do lado de fora. Ele tirou o cabresto de seu animal, o alimentou e deu água para ele, entrando em seguida no local, para se alimentar. Ao entrar, um dos homens que entraram antes, perguntou por que ele havia demorado tanto, pois ele estaria perdendo a comemoração. Então, aquele homem respondeu com uma pergunta, que jamais esqueci: “Que tipo de homem se alimenta e se diverte, enquanto quem está sob sua responsabilidade e não pode cuidar de si mesmo fica com fome e sede?”

Anos depois, vi um charge que me fez lembrar daquela pergunta que ouvi naquele filme. Na charge, um homem sentado confortavelmente em seu sofá, com um lençol sobre suas pernas, diante da televisão, alimentando-se fartamente com sua família, fala ao telefone com o “irmão José”, que, pelo que se percebe, estava sem alimentos. Aquele homem promete ao faminto que o Senhor providenciaria o socorro a ele. Mas não se coloca, nem pela fala, nem pela aparente atitude, como alguém que poderia ser o instrumento do Senhor para isso.

O Salvador Jesus Cristo disse: “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado com as ovelhas.”(4)

A pergunta que cada um precisa se fazer, é: tenho agido como um bom pastor, que está pronto a servir e a dar a minha vida pelas minhas ovelhas, ou tenho agido como um mercenário, que cuida das ovelhas apenas pela recompensa, e não está disposto a se arriscar por elas? Esta não é uma pergunta fácil de ser respondida, é claro. No primeiro momento, vamos querer nos colocar na posição de bons pastores e, sem dúvida, encontraremos argumentos que justifiquem este nosso julgamento pessoal sobre nós mesmos. Porém, uma avaliação mais criteriosa e sem desculpas, talvez nos traga a consciência de uma realidade diferente, ao menos em certas situações.

O Presidente Henry B. Eyring disse: “Um pastor cuida das ovelhas. Nas histórias das escrituras, as ovelhas estão em perigo e precisam de proteção e alimento. O Salvador adverte-nos que precisamos cuidar das ovelhas tal como Ele, que deu a vida por elas. Elas são Suas. Não podemos aproximar-nos do padrão que Ele estabeleceu, como mercenários, cuidarmos das ovelhas apenas quando isso for conveniente e recebermos uma recompensa.”(5)

Em 2008, e por alguns anos depois, o mundo sofreu com uma séria crise econômica originada nos Estados Unidos da América. Muitos faliram, perderam seus lares e economias e foram literalmente viver nas ruas, sofrendo todas as dificuldades e tristezas consequentes. Falando aos portadores do sacerdócio em uma Conferência Geral em 2008, o Presidente Thomas S. Monson declarou: “Muitas regiões do mundo passam por dificuldades financeiras. Há companhias falindo, empregos sendo perdidos e investimentos em perigo. Precisamos certificar-nos de que aqueles por quem somos responsáveis não fiquem famintos, desnudos ou desabrigados. Ocorrem coisas quase milagrosas quando os portadores do sacerdócio desta Igreja trabalham em conjunto, como se fossem um, para solucionar esses problemas.”(6) Aos que não estavam dispostos a cumprir as responsabilidades inerentes ao seu chamado como portadores do sacerdócio, ele alertou: “Quão terrível deve ser o remorso daqueles cujos tímidos esforços permitiram que um filho de Deus ficasse sem ser (…) auxiliado.”(7)

Hoje, o lobo é este vírus terrível, que tem assolado nosso mundo. Dos pastores das ovelhas do Senhor, se requer que assumam a responsabilidade de cuidarem do bem-estar das ovelhas que lhes foram confiadas – algumas já balindo de fome e desespero! – não deixando-as à própria sorte. Os que não agirem assim, serão como os mercenários citados pelo Salvador, que buscam os louvores das pessoas e o salário de bênçãos, mas que, na realidade, não se importam com as ovelhas. Sejamos bons pastores! Cuidadores reais, dispostos a enfrentarmos este terrível lobo em defesa destas ovelhinhas que choram. “É o amor que precisa motivar os pastores de Israel”(8), disse o Presidente Henry B. Eyring.

Talvez alguns se perguntem o que podem fazer e como podem fazer. Há três ações que são a base de todo o trabalho de um pastor, quando um predador se aproxima de seu rebanho: Ele alerta as ovelhas sobre o perigo, socorre as que forem feridas e as ajuda a se recuperarem dos efeitos de seus ferimentos. Avisar as ovelhas sobre o mal que se aproxima é muito importante, mas insuficiente. Não se pode pensar que apenas enviar uma mensagem a um liderado seja o bastante para livrá-lo do problema. “Os membros da Igreja são as ovelhas. Elas são Dele, e fomos chamados por Ele para cuidarmos delas. Temos que fazer mais do que apenas avisá-las do perigo. Precisamos alimentá-las”(9), disse o Presidente Henry B. Eyring.

Quando falamos em ajudar aos que necessitam, pensamos logo nos bispos da Igreja. O Manual 2: Administração da Igreja, afirma que “o bispo (…) tem o encargo divino de procurar os pobres e cuidar deles”.(10) Este foi o mandamento do Senhor ao primeiro bispo da Igreja: “E o bispo, Newel K. Whitney, também deve viajar pelas redondezas e por entre todas as igrejas, buscando os pobres a fim de atender às suas necessidades.”(11) Esperar que os necessitados peçam ajuda é insuficiente. É preciso procurar quem necessita do socorro. O Presidente Thomas S. Monson afirmou: “Sou grato aos bispos solícitos e zelosos que não permitem que o armário de viúva alguma fique vazio, casa alguma fique fria e vida alguma deixe de ser abençoada.”(12) Embora os bispos estejam na linha de frente, todos somos pastores e, portanto, responsáveis pelo bem-estar das ovelhas.

Quando falamos em prover à maneira do Senhor, entendemos que ninguém deve ser colocado na posição de receber ajuda permanente, mas que todos devem aprender a serem autossuficientes. Contudo, a máxima que diz que “não devemos dar o peixe, mas devemos ensinar a pescar”, não se aplica a situações em que a necessidade é urgente e clara. Quem já viu alguém com fome conseguir aprender a fazer algo? É necessário dar um peixe para comer e, depois, ensinar a pescar. Especialmente em um período em que empregos estão desaparecendo, empresas estão falindo e não se sabe ao certo muito sobre o presente – que dizer do futuro? -, esperar que as pessoas utilizem suas habilidades para conseguir seu sustento imediato é tratar com leviandade o sofrimento do outro. Se a pessoa morrer de fome antes de aprender a pescar, o líder nada terá feito por ela. Parafraseando o autor de Eclesiastes, “Há tempo de dar o peixe, e tempo de ensinar a pescar.”(13)

Outra postura comum a ser corrigida nestes tempos desafiadores, é a tendência de julgarmos as razões das dificuldades das pessoas. É verdade que muitos atraem para si sofrimentos que poderiam ter sido evitados, e o fazem por atitudes impensadas e distantes do padrão de conduta que se espera de um seguidor do Salvador Jesus Cristo, ou por não terem atendido aos alertas dos profetas do Senhor para se prepararem para os desafios. Porém, na parábola da ovelha perdida, o pastor não questionou o motivo de ela ter se perdido e ter ficado para trás. Talvez ela tenha visto um pasto que lhe pareceu mais atraente, mas fora da área de segurança, e se desgarrou do rebanho. Talvez ela tenha ficado presa em algum arbusto, ou tenha se ferido ao andar. Ajudá-la a não cair naquele problema novamente era importante, mas uma tarefa secundária. Naquele momento, o importante a fazer era cuidar da ovelha e colocá-la em segurança no redil.(14)

Ao retornar ao seu lar, o filho pródigo foi cuidado por seu pai, que “se moveu de íntima compaixão, e correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou”(15), sem julgamentos desnecessários para aquele momento. Acredito que, depois, aquele homem teve uma boa conversa com seu filho inconsequente, para ajudá-lo a corrigir-se. Porém, esta não era a ação imediata necessária. Na parábola do bom samaritano, falamos muito sobre a atitude do sacerdote, do levita e, especialmente, do samaritano. Porém, pouco sabemos sobre o homem que ia de “Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores”(16). Seria ele um homem bom e justo? Seria ele um homem cumpridor de seus deveres religiosos? Seria ele alguém digno perante o Senhor? De maneira muito clara, o Senhor omitiu do relato a identidade daquele homem, quais suas virtudes e defeitos, se ele seria ou não merecedor da ajuda pelos critérios daqueles que o encontraram. Provavelmente porque, na realidade, nada disso importava, exceto que ele estava em situação de perigo e precisava de socorro imediato.

Falando sobre isso, o Élder Jeffrey R. Holland nos ensinou: “Como ensinou o rei Benjamim, podemos parar de reter nossos bens porque vemos que o pobre trouxe sobre si a própria desgraça. Talvez alguns tenham criado suas próprias dificuldades, mas o restante de nós não faz exatamente o mesmo? Não foi por isso que aquele rei, cheio de compaixão, perguntou: ‘Não somos todos mendigos?'(17) Não pedimos todos desesperadamente ajuda, esperança e resposta às orações? Não imploramos todos por perdão para os erros que cometemos e problemas que causamos? Não imploramos todos que a graça compense nossas fraquezas, que a misericórdia triunfe sobre a justiça pelo menos no nosso caso? Não é de admirar que o rei Benjamim tenha dito que obtemos uma remissão dos nossos pecados suplicando a Deus, que responde com compaixão, mas retemos a remissão dos nossos pecados respondendo com compaixão às súplicas dos pobres.”(18)

E ele continuou: “Nos dias atuais, a Igreja restaurada de Jesus Cristo ainda não tinha completado um ano quando o Senhor ordenou aos membros: ‘Eles cuidarão dos pobres e necessitados e ministrar-lhes-ão auxílio para que não sofram’.(19) Notem que o sentido é imperativo – ‘para que não sofram’. Essa é a linguagem que Deus usa quando está falando sério.”(20) O autor de Provérbios ensinou: “O que tapa o seu ouvido ao clamor do pobre, ele também clamará e não será ouvido.”(21)

“Ajudar a aliviar o sofrimento é cultivar um caráter cristão”(22), disse o Bispo H. David Burton. Que possamos, como bons pastores das ovelhas do Senhor, trabalharmos incessantemente para socorrê-las, sem julgá-las, colocando seu bem-estar acima do nosso. Que nenhum dos servos do Senhor possa se julgar confortável ou seguro, enquanto um ovelha estiver perdida, “gemendo, tremendo de frio”.(23) Como disse o Presidente Gordon B. Hinckley, “nenhum homem pode ser um verdadeiro santo dos últimos dias, se (…) não se dedicar a ajudar os outros.”(24)

Referências

(1) Salmos 23:1
(2) João 10:11
(3) Ozeias de Paula, “Cem Ovelhas”, Gravadora Estrela da Manhã, 1973
(4) João 10:11-13
(5) Presidente Henry B. Eyring, “Velai Comigo”, Conferência Geral, abril de 2001
(6) Presidente Thomas S. Monson, “Aprender, Fazer e Ser”, Conferência Geral, outubro de 2008
(7) Presidente Thomas S. Monson, “Aprender, Fazer e Ser”, Conferência Geral, outubro de 2008
(8) Presidente Henry B. Eyring, “Velai Comigo”, Conferência Geral, abril de 2001
(9) Presidente Henry B. Eyring, “Velai Comigo”, Conferência Geral, abril de 2001
(10) Manual 2: Administração da Igreja, Capítulo 6, “Princípios e liderança de bem-estar”, Tópico 6.2.1
(11) Doutrina e Convênios 84:112
(12) Presidente Thomas S. Monson, “Os Órfãos e as Viúvas – Amados de Deus”, Conferência Geral, outubro de 1994
(13) Eclesiastes 3
(14) Lucas 15:3-7
(15) Lucas 15:11-32
(16) Lucas 10:29-37
(17) Mosias 4:19
(18) Élder Jeffrey R. Holland, “Não Somos Todos Mendigos?”, Conferência Geral, outubro de 2014
(19) Doutrina e Convênios 38:35
(20) Élder Jeffrey R. Holland, “Não Somos Todos Mendigos?”, Conferência Geral, outubro de 2014
(21) Provérbios 21:13
(22) Bispo H. David Burton, “Vai, e Faze da Mesma Maneira”, Conferência Geral, abril de 1997
(23) Ozeias de Paula, “Cem Ovelhas”, Gravadora Estrela da Manhã, 1973
(24) Presidente Gordon B. Hinckley, “Letter-day Prophets Speak: Service”, Ensign, setembro de 2007, p. 49


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