“Quando te converteres”

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É comum utilizarmos o termo “converso” em relação aos que se tornam membros da Igreja, diferenciando-os, por esta palavra, dos que são “nascidos” na Igreja. Porém, há uma definição muito maior para “converso”, que abrange todas as pessoas, sejam “nascidas” na Igreja ou a tenham conhecido em qualquer época de suas vidas.

Converso é alguém que “[muda] as crenças, os sentimentos e a vida para aceitar e cumprir a vontade de Deus. A conversão inclui a decisão consciente de renunciar à forma de ser anterior e de mudar, a fim de tornar-se um discípulo de Cristo.”(1)

Tornar-se um discípulo de Jesus Cristo é o grande fim da conversão. É a mudança plena, de quem você é, para quem você deve ser. Paulo explicou isso aos Santos de Corinto: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”(2)

E porque você deve mudar, converter-se? Qual a razão por que quem você é hoje pode não ser o suficiente para ser contado como discípulo? O rei Benjamim explicou sobre essas questões no grande discurso que dirigiu ao seu povo, registrado no Livro de Mórmon: “Porque o homem natural é inimigo de Deus e tem-no sido desde a queda de Adão e sê-lo-á para sempre.”(3)

Lembre-se que o homem natural é “uma pessoa que escolhe deixar-se influenciar por paixões, desejos, apetites e impulsos da carne e não pela inspiração do Espírito Santo. Esse tipo de pessoa pode compreender as coisas físicas, mas não as espirituais.”(4) Foi esse tipo de pessoa que o rei Benjamim classificou como “inimigo de Deus”. Como certamente você não quer ser assim, daí a necessidade de conversão.

Mas, o que você deve fazer para que esta conversão se realize? O próprio rei Benjamim ensinou: “Ceda ao influxo do Santo Espírito e despoje-se do homem natural e torne-se santo pela expiação de Cristo, o Senhor; e torne-se como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai.”(5)

A este processo apresentado pelo rei Benjamin, quando desenvolvido de modo sincero e constante, sério e definitivo, chamamos de “conversão”. O Presidente Harold B. Lee disse: “A conversão deve significar mais do que ser membro da Igreja apenas de nome, com um recibo de dízimo ( … ) [ou] uma recomendação para o templo”. A pessoa convertida “luta continuamente para vencer as fraquezas interiores e não apenas para melhorar as aparências”.(6)

Mas, como saber se você está fazendo do modo correto, se o processo de conversão está se desenvolvendo bem? O Presidente Joseph Fielding Smith ensinou como é possível identificar se você está sendo convertido: “A conversão ocorre quando o Espírito do Senhor entra no coração das pessoas e elas humildemente dão ouvidos aos testemunhos dos servos de Deus”.(7)

E o irmão Tyler Orton anotou: “Você sabe que está ficando convertido quando começa a viver a lei maior, o evangelho de Jesus Cristo. Você vive o espírito da lei, bem como a letra da lei. Vive o evangelho em todos os aspectos de sua vida. Vive o evangelho em sua plenitude, não porque é obrigado, mas porque quer. Você é uma pessoa mais feliz e mais agradável e quer se tornar a pessoa que o Pai Celestial deseja que você seja. Você quer ser como Jesus Cristo e seguir Seu exemplo. Quando se tornar essa pessoa, estará realmente convertido.”(8)

Sei que o que estou dizendo não é nenhuma novidade. Mas, se é tão óbvio, por que o processo de conversão parece ser tão difícil? A resposta está na decisão pessoal de cada um. Todos querem ser convertidos, porém, nem todos parecem querer assumir a responsabilidade da sua própria conversão. Preferem colocar sobre a Igreja essa responsabilidade ou direcionar a sua conversão à Igreja. Talvez você pense que isto é certo, mas, na verdade, não é.

Primeiro, é preciso compreender que a conversão é a Cristo e ao Seu evangelho, não à Igreja. No Livro de Mórmon, lemos: “E aconteceu que, assim, andaram pelo meio de todo o povo de Néfi e pregaram o evangelho de Cristo a todas as pessoas de toda a face daquela terra; e elas foram convertidas ao Senhor e uniram-se à Igreja de Cristo; e assim foi abençoado o povo dessa geração, segundo a palavra de Jesus.”(9)

A Igreja é um instrumento necessário para a conversão, mas não deve ser o foco da conversão. O Élder D. Todd Christofferson deixou isto muito claro, quando disse: “Não nos empenhamos para nos converter à Igreja, mas a Jesus Cristo e Seu evangelho, uma conversão que é facilitada pela Igreja.”(10)

Quando alguém foca a sua conversão na Igreja, como instituição ou congregação, ele não consegue alcançar a conversão verdadeira, que só pode ser obtida quando o foco é Cristo e Seu evangelho. Quando há esse desvio de foco, ocorrem distorções e má condução do processo de conversão. A pessoa passa anos e anos na Igreja, e não progride espiritualmente, quase não se move, espiritualmente falando, porque está concentrada -se no que é exterior, visível, que é o que a Igreja faz, quando deveria estar concentrada no interior, no que não pode ser visto.

As ações da e na Igreja, como detentora do direito de administrar o evangelho, são essenciais nesse processo, mas, se colocados sob a ótica errada, podem, paradoxalmente, impedir o seu crescimento espiritual. O Élder Donald L. Hallstrom ensinou isto de uma forma bem clara:

“Alguns acham que a atividade na Igreja é a meta final. Há um perigo nisso. É possível alguém ser ativo na Igreja e menos ativo no evangelho. Deixem-me salientar um ponto: a atividade na Igreja é uma meta muito desejável, contudo é insuficiente. A atividade na Igreja é uma indicação externa de nosso desejo espiritual. Se frequentamos as reuniões, recebemos e cumprimos responsabilidades na Igreja e servimos ao próximo, isso é observado publicamente.

Em contrapartida, as coisas do evangelho geralmente são menos visíveis e mais difíceis de medir, mas são da maior importância eterna. Por exemplo: quanta fé temos realmente? Quão arrependidos estamos? Quão significativas são as ordenanças em nossa vida? Quão concentrados estamos em nossos convênios?

Repito: precisamos do evangelho e da Igreja. Na verdade, o propósito da Igreja é ajudar-nos a viver o evangelho. Frequentemente nos perguntamos: Como é que alguém pode ser plenamente ativo na Igreja, quando jovem, e depois deixar de ser, ao ficar mais velho? Como pode um adulto que frequentava e servia regularmente parar de vir à Igreja? Como pode uma pessoa que ficou decepcionada com um líder ou com outro membro permitir que isso encerre sua participação na Igreja? Talvez o motivo seja que eles não estavam suficientemente convertidos ao evangelho, às coisas da eternidade.”(11)

Segundo, é preciso compreender que a conversão envolve todos os aspectos da sua vida. É relativamente fácil sentir-se bem e no curso certo, quando se está envolvido com as questões do evangelho ou com irmãos da Igreja. Porém, é no dia a dia, nas suas atividades profissionais, educacionais ou sociais,  que a atenção maior deve ser dada. Os lugares que você frequenta são dignos de seu processo de conversão? Seu comportamento pessoal nos ambientes nos quais o evangelho não é o tema predominante – ou não é citado em tempo algum – é o mesmo de quando você está entre os Santos? O seu tom de voz ao falar com as pessoas que o cercam é o mesmo que você usa em suas orações? Essas são questões importantes. Lembrar-se do seu processo de conversão apenas quando está fazendo algo relacionado à Igreja, é tentar colocar sobre a Igreja a responsabilidade pela sua conversão. Acreditar que apenas poucas horas semanais de trabalho espiritual bastará para alcançar a condição de discípulo, é um engano. A conversão é um trabalho que requer 24 horas diárias, 7 dias por semana de empenho absoluto. É na rotina diária que a conversão se dá.

O Élder W. Mack Lawrence deu o seguinte conselho: “Gostaria de, humildemente, aconselhar cada um de vocês a avaliar seu nível atual de conversão e compromisso. Faça uma entrevista consigo mesmo e pergunte-se o quão eficiente você tem sido em seu chamado atual. Reflita com que fidelidade tem guardado os mandamentos e agido de acordo com os conselhos dos profetas e outros líderes da Igreja, divinamente chamados, inclusive seu bispo e presidente de estaca. É necessário lembrá-lo de seus deveres ou você é uma pessoa que toma iniciativa e conclui tarefas?”(12)

Gostaria de apresentar aqui uma lista de perguntas que podem ser úteis nessa sua entrevista pessoal. Vou dividi-las em quatro áreas de relacionamento: O seu relacionamento com o Senhor, o seu relacionamento consigo mesmo, o seu relacionamento com os seus irmãos e o seu relacionamento com os seus líderes.

O seu relacionamento com o Senhor

– Você se esforça para obedecer ao Senhor em todas as coisas, mesmo as que lhe parecem insignificantes, ou você é seletivo no que obedece?

– Você é firme em sua palavra de seguir as normas e mandamentos, ou você é inconstante e volúvel, hoje sendo um exemplo de obediência, amanhã sendo uma preocupação?

– Você paga o seu dízimo como um humilde devedor do Senhor, ou você acredita mesmo que tem algum mérito ou direito porque entrega a Ele o dinheiro que já é Dele?

– Você zela e protege a Casa do Senhor como deseja que o Senhor zele e proteja a sua casa?

– Você recebe, aceita e exerce com humildade, gratidão e vigor todos os chamados que o Senhor lhe faz para servir em Seu reino, ou você impõe condições, é seletivo em seu ânimo de acordo com o cargo, com quem e a quem servirá, adotando uma atitude tal como se estivesse fazendo um favor ao Senhor?

O seu relacionamento consigo mesmo

– Você se esforça para moldar a sua personalidade e decisões ao modelo do Senhor, ou você prefere acreditar que a sua atitude e forma de pensar é o modelo a ser seguido por Ele?

– Você se mostra disposto a adaptar a sua aparência, vestuário e linguajar ao padrão estabelecido pelo Senhor por meio dos profetas e outros líderes, ou você permite que a sua vaidade e desejo por popularidade o convençam de que o Senhor é quem deve adaptar a Sua Igreja aos seus padrões?

– Você estuda as lições dominicais do evangelho com o propósito de aprender pelo Espírito Santo e pelo Espírito Santo ensinar aos irmãos em uma atitude de edificação espiritual mútua, ou você busca conhecimento para exibi-lo em público, diminuir professores e gerar dúvidas, em lugar de certezas, nos corações dos que lhe ouvem?

O seu relacionamento com os seus irmãos

– Você sabe dimensionar e pesar as questões, ou você permite que coisas pequenas tomem proporção maior do que merecem, ao ponto de se tornarem uma barreira entre você e outra pessoa?

– Você tem o desejo sincero de perdoar a todos os seus ofensores, ou você prefere confiar mais no poder da vingança que no poder da misericórdia e do perdão?

– Você ora ao Senhor por aqueles que sofrem os efeitos do pecado e de decisões infelizes, e não trata do assunto com mais ninguém, ou você, ao saber que alguém cometeu um erro, apressa-se a contar “a novidade” aos seus amigos?

– Você reconhece sinceramente os esforços dos outros e sabe conviver com as diferenças, ou você acredita que as coisas só são boas o suficiente se forem feitas ao seu modo, ao seu gosto ou por você?

– Você é verdadeiro sobre suas ações, ou você procura se enganar e enganar aos outros, dizendo que não critica, só comenta; que não julga, só avalia; e que não desobedece, só exerce seu livre arbítrio?

O seu relacionamento com os seus líderes

– Você apoia o seu líder, ou você nem mesmo quer ouvir o que ele tem a dizer?

– Você respeita, honra e é um apoio com suas palavras e ações àqueles a quem o Senhor colocou em todas as posições no reino, ou você declara por palavras e ações que tem preferidos pessoais seus para certas posições e age na tentativa de enfraquecer e desqualificar quem não está na sua lista de favoritos?

– Você concorda, com prontidão e humildade, quando um líder informa sobre algo, como um novo irmão para um chamado ou uma nova diretriz a ser seguida, ou em seu íntimo você somente aceita aquilo que está de acordo com o seu modo de pensar, e murmura, em seu coração ou com seus lábios, contra a vontade expressa do Senhor?

– Você é tolerante com os seus líderes, compreendendo que todos eles possuem imperfeições e estão, assim como você, no processo de aperfeiçoamento pessoal, ou você exige deles o que não é exigido de você mesmo: a perfeição absoluta, criticando fortemente ao menor sinal de deslize ou falha?

– Você dedica a sua lealdade e a sua fidelidade àqueles a quem o Senhor, por meio de Seus canais oficiais do sacerdócio, colocou como governantes em Seu reino, ou você elege seu próprio governo paralelo e a ele dedica a sua lealdade e a sua fidelidade?

– Você acata respeitosamente as decisões do Juiz Comum em Israel, ou você se coloca na posição de juiz do Juiz?

Lembre-se que “a conversão é um processo, não um acontecimento isolado. Convertemo-nos como resultado de nossa retidão e empenho em seguir o Salvador.”(13) Viva cada dia com o propósito de avançar um pouco mais em sua conversão, em sua verdadeira conversão. Foque no Salvador Jesus Cristo e em Seu evangelho e desfrute de todas as oportunidades e bênçãos que a Igreja oferece a fim de ajudá-lo neste processo.

Referências

(1) Guia para Estudo das Escrituras, “Conversão”
(2) 2 Coríntios 5:1
(3) Mosias 3:19
(4) Guia para Estudo das Escrituras, “Homem Natural”
(5) Mosias 3:19
(6) Presidente Harold B. Lee, “The Iron Rod”, Ensign, junho de 1971
(7) Presidente Joseph Fielding Smith, Church History and Modern Revelation
(8) Tyler Orton, “Dez Maneiras de Saber Se Você Está Convertido”, A Liahona, abril de 2013
(9) 3 Nefi 28:23
(10) Élder D. Todd Christofferson, “Qual a Razão da Igreja”, Conferência Geral, outubro de 2015
(11) Élder Donald L. Hallstrom, “Convertidos a Seu Evangelho por Intermédio de Sua Igreja”, Conferência Geral, abril de 2012
(12) Élder W. Mack Lawrence, “Conversão e Compromisso”, Conferência Geral, abril de 1996
(13) Sempre Fiéis, “Conversão”


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