Perdoar a todos, para ser perdoado de tudo!

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Na conferência geral de abril de 2019, o Presidente Russel M. Nelson disse: “Nada é mais libertador, mais enobrecedor ou mais crucial para nosso progresso individual, do que um enfoque constante e diário no arrependimento. (…) Quando acompanhado da fé, o arrependimento permite que tenhamos acesso ao poder da Expiação de Jesus Cristo.”(1)

Que poder é esse, produzido pela Expiação de Jesus Cristo, ao qual podemos acessar com o arrependimento “acompanhado da fé”? Esse poder é tão vital, que o Presidente Gordon B. Hinckley disse: “Acredito que talvez seja a maior virtude da Terra e certamente a mais necessária.”(2) Este tão grande poder é o perdão!

Gostaria de tratar sobre este grande poder do perdão, em três de seus aspectos: Receber o perdão do Senhor, Perdoar ao próximo e Perdoar a si mesmo.

Receber o perdão do Senhor

O Salvador expiou pelos nossos pecados para que pudéssemos ser perdoados, mediante nosso arrependimento. O perdão e o arrependimento são tão ligados um ao outro, que não é possível nos arrependermos e não recebermos o perdão, e não é possível sermos perdoados sem nos arrependermos.

Falando sobre este assunto, o Élder Dieter F. Uchtdorf disse: “A doutrina é clara. Todos nós dependemos do Salvador; ninguém pode ser salvo sem Ele. A Expiação de Cristo é infinita e eterna. O perdão de nossos pecados só vem condicionalmente. Devemos arrepender-nos.”(3)

Quando nos arrependemos sinceramente, somos transformados, ou, em outras palavras, nos convertemos. Então, recebemos o perdão divino. Assim, nos tornamos confiáveis diante do Senhor. O Senhor ama a todos, mas confia nos convertidos. Precisamos ser confiáveis para o Senhor. Precisamos de Seu perdão!

O Senhor disse: “Eis que aquele que se arrependeu de seus pecados é perdoado e eu, o Senhor, deles não mais me lembro.”(4) É claro que, para termos acesso a ao perdão pleno, precisamos de arrependimento pleno. O Élder Bruce R. McConkie ensinou sobre isso: “O perdão, que inclui a absolvição divina e completa remissão do pecado, está disponível para todos homens (com exceção daqueles que pecaram para morte – D&C 42:18; 79; 64:7) com a condição de que eles se arrependam. (…) A lei do perdão requer o seguinte: 1) Tristeza segundo Deus por ter pecado – Inclui contrição honesta e sincera da alma, contrição nascida de um coração quebrantado e um espírito arrependido. Pressupõe um reconhecimento pessoal verdadeiro, de que os feitos da pessoa foram maus aos olhos Dele, que é Santo. Não há reserva mental na tristeza segundo Deus. Nenhum sentimento de que talvez os pecados não sejam tão sérios. Certamente é mais do que um remorso porque o pecado veio à luz, ou porque foi perdida, por sua causa, alguma preferência (de bênção) ou status. Paulo disse: ‘Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação (…) mas a tristeza do mundo opera a morte.’ (2 Coríntios 7:10). 2) Abandono do pecado – Para alcançar o perdão, todos os pecados devem ser confessados ​​ao Senhor. O pecador deve abrir seu coração ao Todo Poderoso e, com tristeza divina, admitir seu erro e implorar pela graça. ‘Eu, o Senhor, perdoo os pecados daqueles que confessam seus pecados perante mim e pedem perdão, se não pecaram para morte.’ (D&C 64:7). (…) Uma parte deste cumprimento total da lei divina, inclui necessariamente o perdão das transgressões do nosso próximo. (Lucas 11:1-4; 3 Néfi 13:9-15) ‘Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.’ (Mateus 6: 9-15) ‘Perdoai, e sereis perdoados.’ (Lucas 6:37)(5)

Estes dois elementos mencionados pelo Élder McConkie, a “tristeza segundo Deus” e o “abandono do pecado” podem ser observados na vida do verdadeiro penitente. Apesar de ainda sermos sujeitos a fraquezas, quando nos entristecemos por termos entristecido ao Senhor mais do que a qualquer pessoa, e decidimos que não faremos isso novamente (e não apenas que não queremos fazer), o poder da Expiação de Jesus Cristo age sobre nós, e somos protegidos para que não caiamos em tentação (ainda que o desejo de fazê-lo seja sentido novamente em algum momento). Esta não é uma condição passiva, mas ativa, para a qual são necessários constante vigilância, fervorosa oração, jejum e firmeza de propósito.

Além disso, há outras coisas que podemos fazer para que o nosso arrependimento seja sempre sincero e produza o perdão do Senhor. A primeira delas, é estarmos na Igreja todos os domingos, não apenas fisicamente, mas também mental, emocional e espiritualmente.

O Élder Jeffrey R. Holland ensinou sobre este assunto tão importante: “Com a fascinante nova ênfase, do aprendizado intensificado do evangelho no lar, é vital que nos lembremos que ainda somos ordenados a irmos à Casa de Oração e oferecermos sacramentos em Seu dia santificado.”(6)

E ele completou: “Somos incentivados a chegar cedo e reverentemente às reuniões, vestidos de modo apropriado para participarmos de uma ordenança sagrada. A ordenança sagrada! A expressão ‘melhores roupas de domingo’ perdeu um pouco do seu significado em nossa época. Em consideração a Ele, em  cuja presença comparecemos, devemos restaurar a tradição de asseio e de vestimenta adequada, quando e onde pudermos.”(7) O Senhor requer de nós apenas duas horas semanais em Sua Igreja, para adorá-lo e aprendermos sobre Ele. Cada minuto a menos desse tempo para Ele, é um minuto a mais para nós. Parafraseando a conhecida escritura de Malaquias 3:8: “Roubará o homem a Deus? Porque vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? No tempo que lhes ordenei que fosse dedicado a mim em meu santo dia.”

E, quanto a estarmos “vestidos de modo apropriado” nas reuniões dominicais, é claro que o Senhor não se importa se, por alguma questão específica, alguém não está vestido como esperado para este momento, especialmente membros novos e visitantes. Porém, para aqueles que já são mais experientes e insistem em manter um padrão de vestuário dominical no seu próprio estilo e não ao modo do Senhor, é melhor atender ao chamamento do Apóstolo e fazer o melhor neste quesito. Homens com roupas sociais e mulheres com vestidos ou saias e blusas que cubram a barriga, os joelhos e os ombros são o padrão adequado para todas as atividades e reuniões dominicais. Sim, porque as “melhores roupas de domingo” não se aplicam somente à reunião sacramental, mas a qualquer outra ocasião em que estivermos na capela neste dia. Vestir terno pela manhã e ir de bermuda ou camiseta à noite para outro evento, é encolher não apenas o padrão de vestuário, mas também o próprio Dia do Senhor. Se houver dúvidas sobre o que vestir ou qualquer outro aspecto ligado à aparência, vejam fotos ou vídeos das autoridades gerais. A sua aparência é o modelo do que se espera de todos nós.

Ainda sobre a adoração ao Senhor em Seu dia santo, é muito importante lembrarmos que não guardar o Dia do Senhor é uma das formas de estar sob o jugo do pecado. O mundo trata o dia do Senhor com leviandade, mas nós não somos do mundo e precisamos tratar este dia maravilho com o máximo respeito que ele merece, por completo e não apenas nas duas horas em que estivermos na Igreja. Foi o próprio Senhor quem fez o alerta, ao dar ao Seu povo nesta dispensação, o mandamento de se reunirem no dia sagrado: “E para que mais plenamente te conserves limpo das manchas do mundo, irás à casa de oração e oferecerás teus sacramentos no meu dia santificado”(8) Este é o grande propósito do Dia do Senhor nesta dispensação: “para que mais plenamente [nos conservemos limpos] das manchas do mundo”.

Há ainda outra questão que nos ajuda no processo de obtenção do perdão do Senhor: a obediência aos mandamentos. Quero chamar a atenção a esta palavra “mandamento”. Ela é derivada da palavra “mandar”, que significa “dar ordem”, “ordenar”. Infelizmente, parece crescer o número de pessoas que acredita que Jeová não entregou a Moisés tábuas contendo 10 mandamentos, mas, sim, apenas “10 sugestões”. Recentemente, ao ser questionado sobre o mandamento de os portadores do Sacerdócio servirem como missionários de tempo integral, um membro da Igreja do sexo masculino saiu-se com essa: “É um mandamento, mas não é uma obrigação.” Meus neurônios quase entram em curto-circuito, tentando encontrar algum sentido nesta afirmação. Pensei em como alguém podia dizer uma frase tão contraditória em si mesma!

Lembrei, então, que este tipo de pensamento não é novo. Já ouvi este mesmo conceito errôneo ser propagado em classes, em discursos e em conversas na Igreja, quando é dito que “na Igreja não somos obrigados a nada, somos apenas aconselhados.”

Embora o sentido deste falso conceito pareça ser o de defender o livre arbítrio, é, na verdade, o contrário. Se não há obrigatoriedade do cumprimento de uma lei, é porque não há realmente uma lei. E aquele que não tem uma lei para cumprir não é livre para escolher obedecer, e nem a justiça nem a misericórdia têm poder sobre ele. Este princípio foi ensinado de forma clara por Alma a seu filho Coriânton: “Ora, como poderia um homem arrepender-se, se não houvesse pecado? Como poderia ele pecar, se não houvesse lei? E como poderia haver lei, a não ser que houvesse castigo? Ora, um castigo foi fixado e foi dada uma lei justa que trouxe o remorso de consciência ao homem. Ora, se não tivesse sido dada uma lei — que, se um homem assassinasse, deveria morrer — teria ele medo de morrer, se assassinasse? E também, se não tivesse sido dada lei alguma contra o pecado, os homens não teriam medo de pecar. E se não tivesse sido dada a lei, que poderia a justiça ou mesmo a misericórdia fazer se os homens pecassem, uma vez que não teriam direito sobre a criatura?”(9)

Não é errado chamarmos os mandamentos do Senhor de conselhos, porém isto não significa que seu cumprimento não seja uma obrigação. Um conselho – no sentido de ser apenas uma orientação – pode ser seguido ou não. Fosse esta a posição do Senhor ou da Sua Igreja para conosco, poderíamos dizer, então, que não somos obrigados a pagar o dízimo, viver a palavra de sabedoria ou viver a lei da castidade, mas apenas somos aconselhados a fazê-lo. Sendo assim, qualquer um de nós que desejasse não seguir estes “conselhos” não poderia ser castigado, pois não haveria obrigação.

Muitos se assustam com a palavra “obrigação”. No dicionário, aprendemos que, entre outras coisas, “obrigação” significa: “dever”, “necessidade moral”, “encargo”, “compromisso”. E que “obrigar-se” (colocar-se em obrigação), significa: “responsabilizar-se”. Quando assumimos um compromisso, nos obrigamos com algo ou alguém. Passamos a ter um dever, uma responsabilidade no cumprimento do nosso compromisso, ou seja, da nossa obrigação. Isto é diferente de ser coagido ou forçado a cumprir o compromisso. No evangelho, jamais somos coagidos ou forçados a fazermos qualquer coisa. Nós nos colocamos sob a obrigação (dever) de fazê-lo por nossa livre escolha. Por exemplo, quando alguém decide se tornar um membro da Igreja, assume o compromisso de pagar o seu dízimo integral. Ao fazer este convênio, a pessoa se coloca sob uma obrigação e deve honrá-la. Porém, jamais será coagido ou forçado a fazê-lo. O Bispo nunca pedirá para ver o seu comprovante de recebimento de salário, nem o forçará a abrir a carteira de dinheiro para pagar o dízimo. A obrigação existe, pois um compromisso foi assumido. Honrar com esta responsabilidade é decisão pessoal.

Também é importante deixarmos bem claro que quando assumimos uma obrigação com a Igreja, estamos assumindo uma obrigação com o Senhor. E, quando não cumprimos com a obrigação assumida, há consequências a serem suportadas. Se um membro da Igreja não cumpre a sua obrigação de pagar o dízimo (para seguir no mesmo exemplo dado anteriormente) ele não poderá frequentar o templo. Restrições tais como não partilhar do sacramento, não exercer as funções do sacerdócio ou não receber um chamado formal são consequências que acompanham a livre decisão de não cumprir um dever assumido com o Senhor e a Sua Igreja. Ninguém deve pensar que pode assumir um compromisso com o Senhor (fazer um convênio), não o cumprir e tudo estará bem. Quando assumimos uma responsabilidade, sempre teremos consequências. Elas podem ser agradáveis (bênçãos) ou desagradáveis (castigo). De qualquer modo, elas (as consequências) são necessárias para o nosso processo de arrependimento e aperfeiçoamento pessoal diante do Senhor.

A Igreja, como legítima detentora da representatividade da vontade do Senhor na Terra, tem não apenas o direito, mas o dever de exigir de nós o cumprimento de Suas leis, Suas ordenanças, Suas revelações e Seus convênios. Nós, Santos dos Últimos Dias, estamos em posição de obrigatoriedade do cumprimento de todos eles, sob pena de não participarmos da Glória Eterna do Senhor. Ser obrigado não significa ser coagido ou forçado. Cumprir uma obrigação não é agir compulsoriamente. A obrigatoriedade a que estamos sujeitos pelo Senhor e Sua Igreja não elimina o nosso arbítrio. Ao contrário, dá-nos o direito de escolher entre a vida ou a morte eterna, ao escolhermos cumprir com a nossa obrigação, ou não.

Quando decidimos obedecer aos mandamentos, provamos nosso arrependimento e nos tornamos merecedores de receber o perdão do Senhor!

Perdoar ao próximo

Perdão significa “eximir alguém da culpa.”(10) Para quem carrega uma culpa, receber o perdão é o mais esperado alívio. O Senhor realizou Seu sacrifício expiatório para que todos nós pudéssemos receber este alívio. Ele não negou Seu sacrifício e Seu perdão a ninguém. Porém, em certos casos, além do perdão do Senhor, precisamos do perdão de nosso próximo ou somos nós que estamos na posição de dar o nosso perdão a alguém. Negar o perdão ao nosso próximo é negar a Cristo e Seu sacrifício por todos nós. É o mesmo que dizer que o erro que a pessoa cometeu contra você é um pecado imperdoável. E nenhum de nós está na posição de determinar isto para o nosso próximo.

O Élder Dieter F. Uchtdorf afirmou que “recusar-se a perdoar é um pecado grave — pecado contra o qual o Salvador alertou.”(11) E Paulo ensinou: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, (…) perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei-o vós também.”(12)

Perdoar o próximo é vital para a obtenção do perdão divino que tanto buscamos para alcançarmos a nossa salvação. O Senhor ensinou como devemos fazer: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.”(13) Pedir perdão ao Senhor e não estar disposto a fazer o mesmo com nosso semelhante é não só um sinal de hipocrisia, mas também de dolo para com o Senhor.

Nosso dever é perdoar a todos, independente da situação. No mundo, as pessoas clamam por justiça, quando na verdade desejam vingança. As pessoas dizem coisas duras de se ouvir e, sem compaixão para com as fraquezas alheias, julgam e condenam em seus corações e, em muitos casos, sequer dão o direito a uma segunda chance a quem já se arrependeu e quer seguir em frente. Como citou o Élder Dieter F. Uchtdorf, “não me julgue só porque o meu pecado é diferente do seu”.(14) “Não julgueis, para que não sejais julgados.”(15), disse o Senhor Jesus Cristo.

Entre as vítimas que às vezes fazemos com nosso julgamento injusto e nossa falta de disposição para o perdão, as que mais sofrem são os membros da nossa própria família. Devemos ter especial cuidado com as palavras e ações para com nossos familiares. A falta do perdão no lar é tão destrutivo quanto os efeitos do erro cometido. O Presidente Russel M. Nelson alertou: “No dia futuro em que completarão sua experiência mortal e entrarão no mundo espiritual, vocês se depararão com esta pungente pergunta: Onde está minha família?”(16) E completou: “A salvação é um assunto individual. Mas, a exaltação é um assunto de família.”(17)

Especialmente, os casais devem lembrar-se dos convênios e promessas que fizeram, antes de negar o perdão um ao outro. A santidade do casamento foi enfatizada pelo Élder D. Todd Christofferson, que citou: “Casamento é mais do que o amor de vocês um pelo outro. (…) Em seu amor vocês veem apenas a si mesmos no mundo, mas no casamento vocês são um elo entre gerações, as quais Deus permite que venham e partam para Sua glória, e as chama a Seu reino. Em seu amor vocês veem apenas sua própria felicidade, mas no casamento vocês são colocados em uma posição de responsabilidade para com o mundo e a humanidade. Seu amor é sua propriedade individual, mas o casamento é mais do que algo pessoal — é uma condição, um ofício. Assim como é a coroa, e não simplesmente o desejo de reinar, que define o rei; assim é o casamento, e não meramente o amor de um pelo outro, que os une à vista de Deus e do homem. (…) Portanto, o amor vem de você, mas o casamento vem do alto, vem de Deus.”(18)

Mas, e se quem nos ofendeu não se arrependeu? E se esta pessoa continua a nos ofender? O Presidente Spencer W. Kimball disse: “Para agirmos em conformidade com o evangelho, temos que perdoar, e isso independente do nosso antagonista arrepender-se ou não, seja ou não sincera a sua transformação, quer ele peça ou deixe de pedir perdão. Devemos seguir o exemplo e os ensinamentos do Mestre.”(19) E completou: “Isso quer dizer que devo perdoar mesmo que aquele que me ofendeu continue frio, indiferente e mesquinho? É isso mesmo, e não existe qualquer equívoco. Um erro muito comum é a ideia de que o ofensor deve primeiro desculpar-se e humilhar-se antes que possa ser perdoado. Sem dúvida, o culpado deve fazer todo o acerto necessário, mas no que se refere ao ofendido, ele tem por obrigação perdoar, independente da atitude do ofensor. Às vezes os homens sentem grande satisfação em ver o desafeto de joelhos pedindo perdão, porém, esse não é o Espírito do Evangelho.”(20)

O Élder Kevin R. Duncan resumiu isto desta forma: “O próprio Cristo, quando foi acusado injustamente, e em seguida foi brutalmente agredido, espancado e deixado sofrendo na cruz, naquele exato momento, disse: ‘Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem’ (Lucas 23:34).”(21)

Há alguns casos em que membros da Igreja, incapazes de fazerem pelo seu próximo o mesmo que esperam que o Senhor lhes faça, chegam a contender com seus irmãos em tribunais. Sobre este assunto, o Presidente Spencer W. Kimball alertou: “Para um membro da Igreja é preferível, inclusive aceitar uma injustiça de outro membro, ao invés de levar o caso à justiça. Os litígios devem ser resolvidos através dos respectivos canais de autoridade da Igreja. Será que alguém ama o próximo se o arrasta aos tribunais? Paulo encontrou essa falta entre os conversos coríntios, e os advertiu: ‘Ousa algum de vós, tendo alguma questão contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida? Assim que, se tiverdes negócios em juízo, pertencentes a esta vida, ponde na cadeira de juiz os que são de menos estima na igreja. Para vos envergonhar o digo: Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos? Mas o irmão vai a juízo contra o irmão, e isto perante infiéis. Assim que é já realmente uma falta entre vós terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano?’ (1 Coríntios 6:1-7)”(22)

Temos o dever de perdoar ao nosso próximo. Quem perdoa, usa de misericórdia e compaixão. O perdão é, para o errante arrependido, a restauração de sua própria vida. Se não podemos dar a nossa vida pela de nosso irmão, ao menos podemos devolver a ele a sua própria vida, com plenitude de alegria, por meio do perdão sincero e completo. Quantos desafios e batalhas duras serão vencidas “nos recônditos da alma [onde] dores há que não se veem”(23), somente por este gesto divino! O Élder Kevin R. Duncan falou: “Frequentemente olhamos para quem nos ofende do mesmo modo que olhamos para um iceberg — vemos apenas uma ponta e não o que está abaixo da superfície. Não sabemos tudo o que está acontecendo na vida da outra pessoa. Não conhecemos o seu passado, não sabemos sobre suas dificuldades, não sabemos quais são as dores que carregam. Irmãos e irmãs, por favor, não me interpretem mal. Perdoar não é tolerar. Não racionalizamos o mau comportamento de outras pessoas nem permitimos que nos maltratem por causa de suas dificuldades, dores e fraquezas. Mas podemos obter maior compreensão e paz quando vemos com uma perspectiva maior.”(24)

Perdoar a si mesmo

O profeta Enos, no Livro de Mórmon, enfrentou uma batalha intensa na busca do perdão de seus pecados. Ele relatou como foi intensa “a luta que [travou] perante Deus antes de receber a remissão de [seus] pecados.”(25). Ele disse: “E ouvi uma voz, dizendo: Enos, perdoados são os teus pecados e tu serás abençoado. E eu, Enos, sabia que Deus não podia mentir; portanto, a minha culpa foi apagada. E eu disse: Senhor, como isso aconteceu? E ele respondeu-me: Por causa da tua fé em Cristo.”(26)

Notem que ele, após ter orado fervorosamente, ouviu do Senhor que seus pecados haviam sido perdoados. Mas, ainda restava nele outra questão, implícita na sua pergunta “Senhor, como isso aconteceu?”. A questão é que, embora Enos houvesse sido perdoado pelo Senhor, ele ainda precisava esquecer seus erros. Ele precisava se perdoar! A pergunta de Enos ao Senhor não demonstra dúvida, mas o desejo de ter a absoluta certeza de que não precisaria mais sofrer pelos seus erros. A resposta do Senhor, de que ele havia sido perdoado por causa da fé que tinha em Cristo, parece ter encerrado todas as suas preocupações a esse respeito.

Perdoar a si mesmo é uma das tarefas mais difíceis e necessárias no processo da obtenção do perdão divino. Quando verdadeiramente nos arrependemos e decidimos não mais agir de maneira errada, recebemos o perdão do Senhor, que promete que não mais se lembrará. E, se Ele não se lembrará, por que devemos nós nos lembrarmos? É claro que a nossa memória não será apagada, mas não nos lembraremos com tristeza, mas com a alegria de termos vencido nossa fraqueza e obtido do Senhor o perdão desejado! Insistir em não se perdoar, remoendo suas próprias mágoas, não apenas interrompe este processo, como ofende ao próprio Senhor, pois que não se perdoar é negar os efeitos do Seu sacrifício expiatório sobre nós.

Outro personagem do Livro de Mórmon, Amon não foi sempre o grande missionário e homem bom, justo e cheio de fé que conhecemos do relato das escrituras. Antes, ele havia cometido muitos erros graves e precisava se arrepender. (27) Ele se arrependeu sinceramente, recebeu o perdão divino e seguiu em frente.  O que teria acontecido se ele não tivesse se perdoado? Talvez ele nunca teria ido para a missão e não teria convertido milhares de pessoas.(28)

O Élder Jeffrey R. Holland falou sobre este assunto: “Por mais chances que achem que perderam, por mais erros que sintam ter cometido ou talentos que achem que não têm, ou por mais longe do lar, da família e de Deus que achem que se afastaram, testifico-lhes que vocês não foram para além do alcance do amor divino. Não lhes é possível afundar tanto a ponto de não ver brilhar a infinita luz da Expiação de Cristo.”(29)

E o Élder Dieter F. Uchtdorf ensinou: “Quando o Senhor requer que perdoemos a todos os homens — isso inclui perdoar a nós mesmos. Às vezes, de todas as pessoas do mundo, a que temos maior dificuldade de perdoar — assim como a que talvez mais precise do perdão — é aquela que encaramos ao olhar no espelho.”(30)

Que possamos nos qualificar para recebermos o perdão do Senhor, o grande fruto da Expiação de Jesus Cristo, por meio do arrependimento, e do perdão ao próximo e a nós mesmos.

Referências:

(1) Presidente Russell M. Nelson, “Podemos agir melhor e ser melhores”, Conferência Geral, abril de 2019.
(2) Gordon B. Hinckley, “O Perdão”, Conferência Geral, outubro de 2005.
(3) Élder Dieter F. Uchtdorf, “Os Misericordiosos Obterão Misericórdia”, Conferência Geral, abril de 2012.
(4) D&C 58:42.
(5) Bruce R. McConkie, “Perdão”, Mormon Doctrine.
(6) Élder Jeffrey R. Holland, “Eis aqui o Cordeiro de Deus”, Conferência Geral, abril de 2019.
(7) Élder Jeffrey R. Holland, “Eis aqui o Cordeiro de Deus”, Conferência Geral, abril de 2019.
(8) D&C 59:9.
(9) Alma 42:17-21.
(10) Tópicos do Evangelho, “Perdão”.
(11) Élder Dieter F. Uchtdorf, “Os Misericordiosos Obterão Misericórdia”, Conferência Geral, abril de 2012.
(12) Colossenses 3:12-13.
(13) 3 Néfi 13:11.
(14) Élder Dieter F. Uchtdorf, “Os Misericordiosos Obterão Misericórdia”, Conferência Geral, abril de 2012.
(15) Mateus 7:1.
(16) Presidente Russel M. Nelson, “Vem, e segue-Me”, Conferência Geral, abril de 2019.
(17) Presidente Russel M. Nelson, “Vem, e segue-Me”, Conferência Geral, abril de 2019.
(18) Dietrich Bonhoeffer, Letters and Papers from Prison [Resistência e Submissão: Cartas e Anotações Escritas na Prisão], ed. Eberhard Bethge, 1953, pp. 42–43, tradução livre. Citado pelo Élder D. Todd Christofferson, “Por Que Casar, Por Que Ter uma Família”, Conferência Geral, abril de 2015.
(19) Presidente Spencer W. Kimball, “O Milagre do Perdão”.
(20) Presidente Spencer W. Kimball, “O Milagre do Perdão”.
(21) Élder Kevin R. Duncan, “O Bálsamo Restaurador do Perdão”, Conferência Geral, abril de 2016.
(22) Presidente Spencer W. Kimball, “O Milagre do Perdão”.
(23) Hinos, 134, “Sim, Eu Te Seguirei”.
(24) Élder Kevin R. Duncan, “O Bálsamo Restaurador do Perdão”, Conferência Geral, abril de 2016.
(25) Enos 1:2.
(26) Enos 1:5-8.
(27) Mosias 27.
(28) Alma 26.
(29) Jeffrey R. Holland, “Os Trabalhadores da Vinha”, A Liahona, maio de 2012, p. 31.
(30) Élder Dieter F. Uchtdorf, “Os Misericordiosos Obterão Misericórdia”, Conferência Geral, abril de 2012.

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Antonio Carlos Lima

Antonio Carlos Lima é um membro da Igreja há 35 anos. Mora em Aracaju/SE. Serviu na Missão Brasil Brasília, de 1991 a 1993. É casado, pai e avô.
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