O Halloween é uma festa para cristãos?

Compartilhe!

O Halloween, festa cultural muito popular nos Estados Unidos e outros países, tem crescido no Brasil já há alguns anos. Igual a muitas outras festas culturais, o Halloween tem origem pagã. Diferente da maioria das outras festas culturais, o Halloween tem, em sua origem, elementos que remetem ao ocultismo e à morte. Isto tem feito com que muitos cristãos poderem se esta é uma festa apropriada para quem recebeu o mandamento de “[afugentar] as trevas do [seu] meio”(1). Muitos têm sido os argumentos usados por quem é a favor e por quem é contra a participação de cristãos no Halloween. Meu objetivo hoje é trazer um pouco mais de luz sobre esta questão.

O Élder Larry W. Gibbons alertou: “Lembrem-se: não brinquem com o mal. Fiquem longe do território do diabo. Não deem a Satanás nenhuma vantagem.”(2)

O Élder Boyd K. Packer foi enfático: “Um aviso: Há um lado obscuro em coisas espirituais. Em um momento de curiosidade ou coragem descuidada, alguns jovens têm sido tentados a brincar com a adoração satânica. Nunca façam isso! Não se associem com pessoas que façam isso! Vocês não têm ideia do perigo! Deixe isso para lá! Há também outros jogos e atividades tolas que estão neste lado obscuro. Deixem isso para lá!”(3)

E o Presidente James E. Faust foi definitivo: “Não é uma coisa boa interessar-se por Satanás e seus mistérios. Nada de bom pode resultar de aproximar-nos do mal. Tal como quando brincamos com fogo, é muito fácil nos queimar: ‘O conhecimento do pecado induz à sua prática’. O único caminho seguro é manter-nos bem distante dele e de quaisquer de suas atividades iníquas e práticas depravadas. Os males do culto ao diabo, da feitiçaria, da bruxaria, do ocultismo, dos encantamentos, da magia negra e todas as outras formas de demonismo devem ser evitados como praga.”(4)

Estes alertas são muito importantes e não devem ser tratados como algo fora da realidade. Por causa desse contexto que envolve essa festa, sou contrário ao Halloween em sua prática original. Porém, não vejo impedimento de, com adaptações consistentes, esta festa ser celebrada por cristãos.

Um exemplo de como adaptações adequadas podem transformar uma festa pagã em um momento aceitável para cristãos, são as festas juninas, comemorações culturais muito populares no Brasil. Estas festas têm em comum com o Halloween a motivação inicial de sua existência: a comemoração pelas colheitas. Com o passar do tempo, e com a popularização e “cristianização”, as festas juninas perderam sua essência pagã e passaram a se tornar parte do calendário cristão no Brasil, sendo comemoradas nas capelas de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, em eventos muito concorridos, especialmente no nordeste do Brasil.

É claro que há certas festas que não podem ser adaptadas, por terem elementos não apropriados aos cristãos em sua essência. Um exemplo claro disso é o carnaval, que, segundo o Élder Claudio R. M. Costa, é um “feriado que se transformou em quatro dias de festividade desregrada.”(5) Uma boa descrição desta festa pagã foi publicada na revista Liahona: “Todos os anos há uma enorme celebração nacional no Brasil chamada Carnaval. Durante três dias e noites, multidões de pessoas enchem as ruas. Eles bebem e dançam, desfilam e festejam. Muitos ignoram as restrições morais, buscando ‘viver o momento’.”(6)

A Igreja jamais celebrou, incentivou ou promoveu o Halloween oficialmente, até aqui. Nem há qualquer menção nos registros de comunicados, discursos, instruções ou manuais, que manifeste ser a Igreja contra a sua realização. A participação ou não nesta festividade é uma questão de decisão unicamente pessoal e familiar. Algumas famílias têm utilizado seu entendimento sobre o melhor a fazer durante o período desta festividade, de modo a não ferir suas crenças enquanto se divertem em “atividades recreativas salutares”.(7)

Uma mãe relatou: “(…) Desencorajamos nossos filhos de fazerem ‘travessuras’ maliciosas e de participarem de atividades popularizadas durante o Halloween, como adivinhação, sessões espíritas ou satanismo teatral. (…) Descobrimos que não é necessário evitar completamente as festividades do Halloween. Com um pouco de planejamento, o Halloween pode ser um momento divertido para a família.”(8)

Outra mãe disse: “Desde quando nossos filhos eram pequenos, meu marido sentiu muito fortemente que comemorar o Halloween no sentido tradicional não seria uma boa prática. (…) Fizemos um conselho de família com nossos cinco filhos, com idades entre um mês e sete anos, e oferecemos uma alternativa que se tornou nossa própria tradição: na semana que antecede o Halloween, em nossa noite familiar, escolhemos cinco famílias próximas de nós ou que necessitem de amizade. No dia do Halloween, todos trabalhamos juntos para preparar nossas ‘guloseimas’. Na noite do Halloween, cada criança entrega as guloseimas para uma das famílias. Então, todos nós saímos juntos para tomar sorvete ou ver um filme.”(9)

Há muitos anos algumas alas realizam festas de Halloween nas capelas, que são, na verdade, como festas à fantasia. Algumas dessas unidades reúnem seus membros no estacionamento da capela e, ali, as famílias abrem as malas de seus carros, que são decoradas, e distribuem doces uns aos outros e brincam juntos. Assim, o “trunk-n-treat” (guloseimas nas malas) tem substituído o “trick-or-treat” (guloseimas ou travessuras).

O Church News, jornal oficial da Igreja, publicou um artigo sobre essa prática: “Uma variação da tradição milenar do Halloween parece estar ocorrendo em algumas partes da Igreja. (…) Tornou-se uma atividade bem-sucedida unir a ala (…) e proporcionar diversão e guloseimas para as crianças e jovens em um feriado potencialmente perigoso.”(10)

É claro que a realização de uma festa em uma ou mesmo em diversas alas não significa que isto seja o melhor a ser feito ou que seja feito da melhor forma. Já presenciei ou soube de festas realizadas em capelas que provavelmente não deveriam ter sido realizadas ali, seja por sua natureza mundana ou pelos conceitos que essas festas carregam.

Ao participar de uma atividade recreativa, os membros da Igreja de Jesus Cristo devem observar os preceitos contidos nas instruções dos líderes gerais da Igreja, como a proibição do uso de máscaras, que está prevista no Manual 2 de Administração da Igreja. Máscaras não são somente os adereços colocados sobre a face, mas também as que são pintadas na face, como fizeram os que participaram do martírio do Profeta Joseph Smith, com o objetivo de esconderem quem eram.(11)

O Élder Quentin L. Cook disse: “Os justos não precisam usar máscaras para ocultar sua identidade.”(12) Certamente o Élder Cook não se referiu apenas a máscaras que são parte de fantasias, mas a como podemos ser vencidos pelo mal, se cedermos às tradições mundanas e aos enganos do inimigo que acompanham estas tradições. Dificilmente alguém usaria uma máscara para defender a moralidade. Ao contrário, o uso de máscaras normalmente é um recurso utilizado na prática de alguma ação imoral.

No que diz respeito às festas, e, especialmente, à festa do Halloween, é muito importante não seguir a cultura predominante no mundo quanto ao vestuário. Ninguém deve usar fantasias vulgares, ou que remetam de qualquer modo ao mal, ao ocultismo, à banalização da morte ou ao satanismo. O Élder Robert D. Hales disse: “Como santos dos últimos dias, não precisamos parecer-nos com o mundo. Não devemos divertir-nos como o mundo. Nossos hábitos pessoais têm de ser diferentes. Nossas recreações devem ser diferentes”.(13)

Outro aspecto a ser considerado ao se participar de uma atividade recreativa, como uma festa, é a dignidade do ambiente e da conduta dos que estarão lá. Os conceitos do mundo estão se distanciando cada vez mais rápido dos preceitos do Senhor. Não é possível manter um pé no mundo e outro na Igreja. Um verdadeiro Santo dos Últimos Dias deve se negar a aceitar o relativismo moral predominante atualmente e deve assumir sua posição de discípulo de Jesus Cristo de forma definitiva e vigorosa. Não é possível ser um na Igreja e outro nas festas.

Falando sobre nossa conduta nos momentos de lazer, o irmão George H. Brimhall, que foi Presidente da Universidade Brigham Young, ensinou: “Não podeis conhecer o caráter de um indivíduo pelo modo como ele faz seu trabalho diário. Observai-o quando seu trabalho estiver terminado. Vide aonde ele vai. Notai os companheiros que ele procura e as coisas que faz quando pode fazer o que quer. Só assim podereis conhecer seu verdadeiro caráter. Vejamos a águia, por exemplo. Esse pássaro trabalha com o mesmo afinco e a mesma eficiência que qualquer outro animal no seu trabalho diário. Ele provê seu sustento e o de seus filhotes com o suor de seu rosto, por assim dizer; mas quando seu trabalho diário termina e a águia pode fazer o que desejar, observai como ela passa suas horas vagas. Ela voa nas alturas do céu, abre suas asas e banha-se nos ares, pois ama a atmosfera limpa e pura das alturas. Por outro lado, consideremos os porcos. Esse animal grunhe e escava a terra e provê o sustendo de seus filhotes tão bem como a águia; mas quando seu horário de trabalho termina e ele tem algum tempo livre, observai aonde ele vai e o que faz. O porco procura os lugares do terreno onde há mais lama e rola, deliciando-se na imundície, pois é disso de que ele gosta. As pessoas podem ser águias ou porcos em seus momentos de lazer.”(14)

E o Presidente Russell M. Nelson disse: “A tentação de ser popular pode priorizar a opinião pública acima da palavra de Deus. (…) Mesmo que ‘todo mundo esteja fazendo isso’, o errado nunca será o certo. O mal, o erro e as trevas nunca serão a verdade, mesmo que sejam populares. Uma advertência das escrituras declara o seguinte: ‘Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas’.”(15) Não podemos querer “servir ao Senhor sem ofender ao diabo”.(16)

Devemos realmente dizer “Adeus, ó Babilônia, nós vamos partir”(17), deixarmos de uma vez por todas qualquer resquício de mundanismo que ainda possa existir em nós, e seguirmos nossas vidas em direção ao lar celestial. O padrão celestial de conduta é o único que nos interessa, estejamos na Igreja, no lar, no trabalho, na escola ou mesmo em uma festa. “Aquele que não consegue viver a lei de um reino celestial não consegue suportar uma glória celestial.”(18) O mundo vai tentar dizer que é difícil, que é mesmo impossível viver este padrão celestial. Mas nós sabemos que é possível, porque já o vivemos antes, quando estávamos na companhia do Pai Celestial na vida pré-mortal. Nosso espírito sabe como isso é bom e ele só pode ser feliz em ambientes e com condutas celestiais. Nosso corpo, gerado neste mundo, tem a tendência a ser influenciado pelas coisas deste mundo. É nossa tarefa cuidar que nosso espírito domine nosso corpo. Sabemos como fazê-lo. Façamos, então!

Referências

(1) D&C 50:25
(2) Élder Larry W. Gibbons, “Portanto, Decidi em Vosso Coração”, Conferência Geral, outubro de 2006
(3) Élder Boyd K. Packer, “To Young Women and Men”, Conferência Geral, abril de 1989
(4) Presidente James E. Faust, “The Great Imitator”, Conferência Geral, outubro de 1987
(5) Élder Claudio R. M. Costa, “Meu Amigo e Conservo: O Exemplo de Luan Felix da Silva”, A Liahona, setembro de 2002
(6) Jan Pinborough, “Brazilian Carnaval”, Liahona, abril de 1990
(7) A Família: Proclamação ao Mundo
(8) Joyce Kinmont,, “I Have a Question”, Ensign, outubro de 1996
(9) Sherry Morrill, “Our Halloween Tradition”, Ensign, outubro de 1978
(10) Cathy Allred, “‘Trunk-n-treat’: A Halloween alternative”, Church News, 5 de novembro de 1994
(11) D&C 135:1
(12) Élder Quentin L. Cook, “Não Usem Máscaras”, A Liahona, março de 2013
(13) Élder Robert D. Hales, “Gifts of the Spirit”, Ensign, fevereiro de 2002, p. 17
(14) George H. Brimhall, “Raymond Brinhall Holbrook e Esther Hamilton Haobrook, The Tall Pine Tree, pp. 111–13, citado pelo Presidente Gordon B. Hinckley, “Não Deixar a Bola Cair”, Conferência Geral, outubro de 1994.
(15) Presidente Russell M. Nelson, “Deixem Sua Fé Transparecer”, Conferência Geral, abril de 2014
(16) Presidente Marion G. Romney, “The Price of Peace”, Tambuli, fevereiro de 1984, p. 6
(17) “Ó Élderes de Israel”, Hinos, 203
(18) D&C 88:22

Siga-me!

Antonio Carlos Lima

Antonio Carlos Lima é um membro da Igreja há 35 anos. Mora em Aracaju/SE. Serviu na Missão Brasil Brasília, de 1991 a 1993. É casado, pai e avô.
Siga-me!

Compartilhe!