“Não terás outros deuses diante de mim”

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O evangelho de Mateus relata que “um (…) doutor da lei, interrogou [Jesus Cristo] para o experimentar, dizendo: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.”(1)

Geralmente nos referimos a estes grandes mandamentos quase como sendo iguais, mas não foi isso o que o Senhor falou. Percebam que a pergunta foi sobre “o grande mandamento”, no singular. E, ao responder, Ele o fez no singular: “Este é o primeiro e grande mandamento”. Somente aí Ele adicionou à resposta a segunda parte, dizendo que é “semelhante” àquela. Saber diferenciar estes mandamentos é importante, porque embora ambos sejam “grandes” e deles dependam “toda a lei e os profetas”, o próprio Salvador os colocou na ordem correta, dando a eles o peso adequado de cada um.

A primeira parte deste ensinamento do Senhor Jesus Cristo já havia sido dada no passado por Moisés: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder.”(2) Logo, vemos que este conhecimento não era algo novo para aquelas pessoas, e muito menos o é para nós agora.

Sabemos que o grande mandamento resume os primeiros quatro mandamentos dados pelo próprio Jeová a Moisés no Monte Sinai:

“Não terás outros deuses diante de mim.
Não farás para ti imagem de escultura (…).
Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão (…).
Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.”(3)

A observância destes mandamentos define o nosso compromisso com o grande mandamento de amar a Deus. Gostaria de abordar o primeiro deles: “Não terás outros deuses diante de mim”

Este, que é o primeiro dos Dez Mandamentos dados ao povo do Senhor, é muito confundido com o segundo, que fala a respeito dos ídolos. Mas, como podemos ver, o Senhor deu estes mandamentos separadamente. Sobre essa diferença, o Presidente Dallin H. Oaks explicou:

“No primeiro dos Dez Mandamentos, aceito como lei religiosa fundamental por cristãos e judeus, Deus ordena: ‘Não terás outros deuses diante de mim.’. Isso é obviamente muito mais que uma proibição contra a adoração pública de imagens como o deus Baal. (A adoração de ídolos é o assunto do segundo mandamento: ‘Não farás para ti imagem de escultura’. O primeiro mandamento é uma proibição abrangente contra a busca de qualquer meta ou prioridade à frente de Deus.”(4)

Sempre que colocamos qualquer pessoa, coisa, desejo, sentimento ou seja o que for, acima de Deus, estamos violando o primeiro mandamento. Talvez o símbolo mais conhecido dessa prática seja o amor ao dinheiro, que tem acometido a muitos e os afastado do amor a Deus.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.”(5) Mamom é uma “palavra aramaica que significa ‘riquezas’”(6), Logo, ninguém pode servir a Deus e às riquezas. Porém, muitos há que, deixando de lado esta séria advertência do Salvador, esquecem o “Follow the prophet” (Siga o profeta) e adotam o “Follow the profit” (Siga o lucro).(7)

Muitos se deixam enganar pelo falso conceito da “teologia da prosperidade”(8), que diz que a riqueza material é a prova da fidelidade ao Senhor e que a ausência de posses materiais é sinal de evidente infidelidade ao Senhor. Assim, muitos buscam ganhos materiais a qualquer custo, para “evidenciarem” a outros a sua fidelidade religiosa. O Presidente Oaks fez um alerta a este respeito: “Os que acreditam no que foi chamado de teologia da prosperidade sofrem devido aos ‘enganos das riquezas’. A posse de riquezas ou uma renda significativa não é um sinal de graça celeste, assim como sua ausência não é uma prova de desfavor celeste.”(9)

Embora o apego aos bens materiais seja, talvez, a mais comum fonte de desrespeito ao primeiro mandamento, há ainda outros “deuses” que são colocados no lugar do Senhor. Dois deles, muito comuns em nossos dias, são fruto da subversão do segundo grande mandamento, que nos diz que devemos amar ao próximo com a nós mesmos.

O primeiro diz respeito à primeira parte do segundo mandamento: “Amarás o teu próximo”. Infelizmente, alguns invertem os mandamentos, acreditando que, para demonstrar amor às pessoas, devemos aceitar e relativizar suas posições e práticas contrárias aos mandamentos. “Alguns, em seus esforços para amar os outros, acham necessário abandonar os ensinamentos e mandamentos de Deus ou defender uma mudança em Sua doutrina.”(10) Uma coisa é amar o pecador, outra, bem diferente e muito perigosa, é tolerar o pecado. Quando o fazemos, estamos colocando isto acima de Deus e deixando de amá-lo, pois Ele mesmo ensinou: “Se me amais, guardai os meus mandamentos.”(11) Devemos amar, respeitar e estender a nossa mão de amizade a todos, porém, sem jamais esquecermos de quem somos, dos mandamentos que recebemos, dos convênios que fizemos e, principalmente, quem é o nosso Senhor: Jesus Cristo e não os nossos amigos.

O segundo diz respeito à segunda parte do segundo mandamento: “Como a ti mesmo“. Quando extrapolamos esta medida do amor a nós mesmos, podemos nos colocar acima de Deus, violando o primeiro mandamento. Isto geralmente se dá de maneira muito sutil, de modo que muitos enveredam por este caminho sem sequer se darem conta disso, realmente. Começa com pequenos pensamentos e atitudes e pode terminar com um “endeusamento” pessoal, de natureza física, intelectual, emocional ou mesmo espiritual. O Presidente Ezra Taft Benson ensinou: “Devemos colocar Deus antes de tudo o mais que exista em nossa vida. (…) Devemos colocar Deus adiante de todas as demais pessoas de nossa vida.”(12) Isto inclui, é claro, a nós mesmos.

Uma das armadilhas astutas do inimigo é nos convencer que precisamos dos prazeres desta vida, mais do que precisamos obedecer a Deus. O Senhor quer que tenhamos alegria nesta vida, que desfrutemos de tudo o que Ele nos proporciona. Porém, quando permitimos que nossa busca por satisfação pessoal esteja acima da nossa busca pela satisfação Dele, estamos nos colocando acima Dele.

Neste quesito de colocar Deus acima dos prazeres da vida, talvez José seja um dos maiores exemplos que encontramos nas escrituras. Potifar havia dado total poder a ele no Egito. Um dia, “a mulher de seu senhor pôs os seus olhos em José, e disse: Deita-te comigo.”(13) Tivesse José cedido, talvez ninguém jamais viesse a saber. Mas José sabia que Deus saberia. Não ofender a Deus era sua primeira preocupação: “Porém ele recusou, e disse à mulher do seu senhor: Eis que o meu senhor não sabe do que há em casa comigo, e entregou em minha mão tudo o que tem; Ninguém há maior do que eu nesta casa, e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porquanto tu és sua mulher; como, pois, faria eu este tamanho mal, e pecaria contra Deus?”(14) Percebem que José enumera tudo o que Potifar havia feito por ele, mas diz que, se fizesse aquilo, seria um pecado contra Deus? José sabia que Deus era a verdadeira fonte de tudo o que ele tinha, de sua capacidade, de seu poder, e que, sem Deus, ele nada seria.

Outro perigo sobre o amor por nós mesmos, é quando deixamos de ser leais a Deus para sermos leais apenas a nossos próprios pensamentos. “A principal característica do amor sempre foi a lealdade.”(15) Abraão ensinou que foi o próprio Jesus Cristo, ainda na existência pré-mortal, que anunciou a razão de virmos a esta Terra: “E assim os provaremos para ver se farão todas as coisas que o Senhor seu Deus lhes ordenar.”(16) Já em Sua vida mortal, o mesmo Jesus Cristo afirmou, falando a respeito de Sua lealdade ao Pai Celestial: “Eu faço sempre o que lhe agrada.”(17)

Fazer o que agrada ao Senhor nem sempre é fácil, do ponto de vista terreno. Mas, quando colocamos as coisas sob a perspectiva eterna, esta tarefa se torna leve e simples. Para adquirir a capacidade de enxergar nossa própria existência pelas lentes da perspectiva eterna(18), devemos fazer duas coisas: Primeiro, estar dispostos a conhecer a vontade de Deus para nossa vida. Segundo, estar dispostos a realizar esta vontade, seja qual for seu custo.

“A grande tarefa da vida é conhecer a vontade do Senhor e, depois, fazê-la.”(19) Para conhecer a vontade do Senhor para nós, precisamos estudar as escrituras e as palavras dos profetas vivos. Precisamos também orar, pedindo ao Senhor que nos dê a conhecer a Sua vontade para nós. É importante estarmos atentos para não confundirmos a Sua vontade com a nossa vontade. Quando buscamos a sintonia com o Espírito Santo, aumentamos nossa capacidade de discerni-las. Quando tentamos decidir sozinhos se aquilo é ou não a vontade do Senhor, corremos o risco de racionalizarmos e, de certo modo, criarmos nossa própria “lei celestial”, feita sob medida para atender aos nossos desejos.

Às vezes, podemos sentir que nossas orações não são respondidas, que nossos pedidos não são atendidos, ou que simplesmente o Senhor não nos ouve. Embora saibamos que o Senhor responde e atende nossas orações de acordo com Sua sabedoria e tempo próprios, e isso pode, em alguns casos, ser medido em anos, sim, pode ser que Ele não nos responda jamais sobre algum assunto específico. Isto se dá quando o que estamos pedindo é nosso desejo, mas não o desejo dele. Mesmo usar o nome de Jesus Cristo para orar ao Pai Celestial pedindo o que não é da vontade de Deus, é um erro. “Podemos realmente orar em nome de Cristo se os nossos desejos forem os dele. Se assim for, pediremos o que é correto, sendo então possível a Deus conceder-nos o que pedimos. Algumas orações deixam de ser respondidas porque de forma alguma representam a vontade de Cristo, mas, sim, emanam do egoísmo humano.”(20)

O que você tem pedido ao Pai Celestial? Que decisões você tem tomado para sua vida? Elas estão em acordo com a vontade expressa do Senhor para Seus filhos ou são fruto apenas da sua vontade? A resposta a esta pergunta dirá quem você tem escolhido em primeiro lugar, ou, de acordo com o primeiro mandamento, a quem você tem escolhido adorar: O Deus de Israel ou você mesmo. O Élder Elder Melvin J. Ballard advertiu: “Quando persistimos, sem o desejo de dizer: “Não seja como eu quero, mas como tu queres,” é possível que o demônio nos responda.”(21)

Se conhecer a vontade de Deus é importante para nossa vida aqui e na eternidade, fazer a vontade de Deus é essencial. Se deixar de querer a nossa vontade para querer a vontade de Deus é importante, deixar de fazer a nossa vontade para fazer a vontade de Deus é essencial. O Salvador Jesus Cristo nos convidou: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.”(22) Negar a si mesmo é deixar de lado suas convicções, seus pensamentos, suas crenças pessoais que estejam em desacordo com a doutrina de Cristo. Tomar a sua cruz é seguir no caminho do convênio, levando sobre seus ombros a responsabilidade de viver segundo Sua vontade. Ele foi o exemplo perfeito disso, pois “a vontade do Filho [foi] absorvida pela vontade do Pai”.(23) Em sua grande agonia, Ele disse: “Pai, se queres, passa de mim este cálice, porém não se faça a minha vontade, senão a tua”.(24) O Salvador e Redentor do Mundo ensinou: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”.(25) Devemos seguir seu exemplo, compreendendo que nascemos neste mundo para fazer a vontade de Deus. Se, neste momento, sua vontade vai de encontro à vontade de Deus, é hora de, com humilde submissão, permitir que sua vontade vá ao encontro da vontade de Deus.

A esta altura, talvez alguns estejam se perguntando: E o meu arbítrio? Não tenho o direito de querer e agir livremente de acordo com a minha vontade? Bem, primeiro, vamos entender a diferença entre o arbítrio e a liberdade. “Arbítrio [é] um dom concedido por Deus (…), o poder de escolha. (…) Liberdade (…) [é] o poder de agir segundo nossas escolhas.”(26) Há algumas pessoas que tendem a compreender o arbítrio como o direito à plena liberdade de ações. Isto é um erro. O dom do arbítrio não pode ser compreendido como um salvo-conduto para fazermos o que quisermos sem recebermos as consequências. Não confunda arbítrio com liberdade para pecar. Somente somos livres ao fazermos o que é certo. Se fizermos o que é pecado, entraremos no cativeiro de Satanás. Quando fazemos o que é contrário à vontade de Deus, isto é rebelião, e Ele nos castiga. Foi assim com Lúcifer e um terço das hostes celestes na existência pré-mortal. Foi assim com Caim. Foi assim com Ananias e Safira. Foi assim com muitos outros ao longo da história. Não aceite a rebelião contra Deus em sua vida.(27)

Nada do que temos é verdadeiramente nosso, nem nosso tempo, nem nossos bens, nem nosso corpo, nem nosso espírito, pois tudo nos foi dado pelo Pai Celestial. A única coisa que temos, desde quando éramos inteligências, sem um corpo espiritual e sem um corpo físico, é a nossa vontade. A nossa vontade é tudo o que podemos oferecer ao Pai e é tudo o que Ele requer de nós. Aquele que consagra a si mesmo, consagra a sua vontade.(28)

O que nos impede de fazer a vontade do Senhor, de colocá-lo em primeiro lugar, acima de todas as coisas, inclusive de nós mesmos? “O maior conflito que qualquer homem ou mulher terá de enfrentar (não importa quão numerosos sejam seus inimigos), será a batalha que trava com o próprio eu. Gostaria de falar do espírito e corpo como ‘eu’ e ‘ele’. ‘Eu’ é o indivíduo que habita nesse corpo, que vivia antes de eu ter este corpo, e que viverá quando eu o deixar. ‘Ele’ é a casa em que moro, o tabernáculo de carne; e o grande conflito é entre ‘eu’ e ‘ele’.”(29)

Quando deixarmos de lado os desejos pessoais, e colocarmos os desejos do Senhor em primeiro lugar, reconhecendo-o como nosso Deus, poderemos cantar mais verdadeiramente: “Aonde mandares irei (…). O que ordenares direi (…). Tal como mandares, serei!”(30)

Que possamos meditar sobre estas palavras do Élder Joseph B. Wirthlin: “Vocês amam o Senhor? Então passem tempo com Ele. Meditem sobre Suas palavras. Tomem sobre si o Seu jugo. Procurem entender e obedecer: (…) Quando amamos o Senhor, a obediência deixa de ser um fardo e torna-se um deleite.”(31)

Referências

(1) Mateus 22:35-40
(2) Deuteronômio 6:5
(3) Êxodo 20:3-8
(4) Presidente Dallin H. Oaks, Pure in Heart, Deseret Book.
(5) Mateus 6:24
(6) Guia para Estudo das Escrituras, Mamom
(7) Antonio Carlos Lima, “Sic transit gloria mundi”, blog Estandarte da Liberdade
(8) Antonio Carlos Lima, “Sic transit gloria mundi”, blog Estandarte da Liberdade
(9) Presidente Dallin H. Oaks, “A Parábola do Semeador”, Conferência Geral, abril de 2015.
(10) Élder Scott D. Whiting, “Aprofunde seu discipulado”, Devocional na BYU, 8 de dezembro de 2020
(11) João 14:15
(12) Presidente Ezra Taft Benson, “O Grande Mandamento – Amar o Senhor”, A Liahona, julho de 1988
(13) Gênesis 39:7
(14) Gênesis 39:8-9
(15) Presidente Ezra Taft Benson, “O Grande Mandamento – Amar o Senhor”, A Liahona, julho de 1988
(16) Abraão 3:25
(17) João 8:29
(18) Antonio Carlos Lima, “Lentes espirituais”, blog Estandarte da Liberdade
(19) Presidente Ezra Taft Benson, “O Grande Mandamento — Amar o Senhor”, A Liahona, julho de 1988
(20) Guia para Estudo das Escrituras, “Oração”
(21) Élder Melvin J. Ballard, “A Luta Pela Alma”, Liahona, setembro de 1984
(22) Marcos 8:34
(23) Mosias 15:7
(24) Lucas 22:42
(25) João 6:38
(26) Presidente Dallin H. Oaks, “O Arbítrio e a Liberdade”, A Book of Mormon Treasury: Gospel Insights from General Authorities and Religious Educators, 32-46.
(27) Antonio Carlos Lima, ” O trabalho de salvação da sua alma”, blog Estandarte da Liberdade
(28) Antonio Carlos Lima, “Comprometido com a obra e a glória de Deus”, blog Estandarte da Liberdade
(29) Élder Melvin J. Ballard, “A Luta Pela Alma”, Liahona, setembro de 1984
(30) Hinos, 167, “Aonde Mandares Irei”
(31) Élder Joseph B. Wirthlin, “O Grande Mandamento”, Conferência Geral, outubro de 2007


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