Erguer a mão e apoiar com lealdade

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Uma das práticas mais conhecidas de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, é o voto de apoio para as pessoas chamadas para cargos da Igreja. O voto de apoio deve ser recebido antes de as pessoas começarem a servir no cargo para o qual foram chamadas.

O procedimento é simples, mas muito significativo. Um líder do sacerdócio autorizado apresenta a pessoa à congregação para o voto de apoio, pedindo que se levante, e informa à congregação que a pessoa foi chamada e qual o cargo para o qual ela foi chamada. Em seguida, propõe que cada um manifeste seu apoio ou sua oposição levantando a mão. Mesmo a pessoa que foi chamada deve participar do voto de apoio.

Embora esta prática esteja presente no Velho Testamento(1), no Novo testamento(2) e na Igreja de Jesus Cristo nesta dispensação desde o início de sua existência(3), não são poucos os que ainda não a compreendem, geralmente porque não compreendem o princípio do Comum Acordo(4). Para entender melhor esta prática, devemos compreender cinco verdades básicas.

Antes de vermos estas verdades, porém, é importante conhecer as quatro etapas do processo de um chamado: A revelação, que o líder recebe de que um irmão deve ser chamado para um cargo; O chamado, que é feito por meio de uma  entrevista pessoal, conduzida por um portador do sacerdócio autorizado; O voto de apoio, que é feito por uma congregação, seja dos membros de toda uma estaca ou ala, ou de um quórum, uma organização ou uma classe; A designação, feita por imposição de mãos, por um portador do sacerdócio autorizado. Aprender sobre as etapas do processo de um chamado é importante e, por isso, tratarei de cada uma delas em artigos futuros, assim como também abordarei sobre as etapas do processo de desobrigação de um chamado.

A primeira verdade a ser compreendida é que as pessoas são chamadas pelo Senhor, não pelos líderes, que são instrumentos para encaminharem estes chamados. O Profeta Joseph Smith deixou isto muito claro quando escreveu as Regras de Fé, que são escritura sagrada, ou, em outras palavras, “a vontade do Senhor, (…) a mente do Senhor, (…) a palavra do Senhor, (…) a voz do Senhor e o poder de Deus para a salvação(5). O texto da escritura diz que “Cremos que um homem deve ser chamado por Deus, por profecia, e pela imposição de mãos, por quem possua autoridade, para pregar o Evangelho e administrar as suas ordenanças.”(6).

Esta é a crença dos Santos dos Últimos Dias: todos são chamados por Deus e por profecia, ou revelação. É por meio da revelação que o líder se torna um instrumento nas mãos do Senhor para que Sua vontade seja feita. Assim, quando perguntarem a você quem o chamou, ou quem chamou qualquer outra pessoa na Igreja, responda claramente que foi o Senhor Jesus Cristo (por meio do irmão Fulano de Tal).

Talvez nem todos sintam que tenham eles mesmos (ou outras pessoas) sido chamados pelo Senhor. Estes sentimentos podem ter diversas origens. Alguns podem sentir que a ausência de formalidade, uma entrevista apressada ou o uso de palavras mal colocadas são elementos suficientes para invalidar a natureza sagrada de um chamado. Outros podem sentir que o fato de terem vivido alguma experiência desagradável com determinado irmão, é o bastante para tornar este irmão inabilitado para receber qualquer chamado, especialmente de liderança. Outros ainda podem sentir que a falta de experiência, de certas habilidades ou de conhecimento acadêmico desqualifica quem chama ou quem é chamado.

A realidade é que nenhum destes motivos – ou de quaisquer outros – são suficientes para determinar que um chamado não foi feito pelo Senhor. Sempre que pensarmos que um chamado não foi feito pelo Senhor, devemos nos lembrar de que somos nossos próprios árbitros(7), não os árbitros da vontade divina.

A segunda verdade a ser compreendida é de que, quando o voto de apoio é pedido, o chamado já foi feito, por revelação. Isto significa que o voto de apoio não é um voto na pessoa, nem para decidir se ela será chamada. Não é uma votação para o cargo, como em uma eleição. O Presidente Russell M. Nelson ensinou este princípio: “Vocês e eu não ‘votamos’ nos líderes da Igreja – em nenhum nível. Mas temos, sim, o privilégio de apoiá-los.”(8). E o Presidente Joseph Fielding Smith declarou: “Ninguém pode presidir nesta Igreja (…) sem o consentimento do povo. (…) e ainda assim não é o direito do povo nomear, escolher, pois esse é o direito do sacerdócio.”(9).

Esta ordem estabelecida pelo Senhor se baseia na verdade anterior, de que o chamado vem do Senhor e não do povo. Assim, o povo não tem qualquer direito sobre o chamado, pois quem chamou e quem foi chamado respondem unicamente Àquele que ordenou o chamado. Assim, tanto quem fez o chamado quanto recebeu o chamado, cada um por sua vez, representam o Senhor perante o povo, e não o povo perante o Senhor. Foi o Presidente Brigham Young que explicou isto de maneira muito clara: “Quem chamou Joseph Smith para ser um profeta? O povo ou Deus? Deus, e não as pessoas o chamaram. Se o povo se reunisse e designasse um deles para ser profeta, ele seria responsável perante o povo; mas na medida em que ele foi chamado por Deus, e não pelo povo, ele é responsável somente por Deus e pelo anjo que entregou o evangelho a ele, e não a qualquer homem na terra. Os Doze prestam contas ao profeta, e não à Igreja, pelo curso que seguem.”(10).

Talvez seja difícil compreender esta maneira de agir do Senhor, quando nossa mente está focada no modelo das organizações criadas pelo homem. Estas organizações são estabelecidas pelo voto popular e, a partir daí, define-se a liderança de um homem eleito por seus pares, em um processo de baixo para cima. No estabelecimento de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o Senhor levantou primeiro um profeta e, somente depois, pelo sacerdócio, a organização foi revelada e a estrutura estabelecida, em um processo de cima para baixo, e sem qualquer campanha ou eleição popular. Esse modelo tem sido empregado pelo Pai Celestial desde a vida pré-mortal(11). Assimilar este modelo do Senhor é essencial para compreender o sistema de voto de apoio para as pessoas chamadas para cargos da Igreja.

A terceira verdade a ser compreendida é de que o voto contrário é permitido como recurso para proteção da Igreja, e não como posicionamento contrário pessoal. O Presidente Joseph Fielding Smith ensinou: “Não tenho o direito de levantar a mão em oposição a um homem designado para qualquer posição nesta Igreja, simplesmente porque não gosto dele, ou por algum desacordo pessoal ou sentimento que possa ter, mas apenas pelo motivo de que ele seja culpado de transgressão, de transgredir as leis da Igreja que o desqualificariam para a posição que ele está sendo chamado a ocupar.”(12)

Observe que o Presidente Joseph Fielding Smith se refere, naquilo que afirmou ser possível levantar a mão em oposição, à situação única de alguém saber que a pessoa que foi chamada é culpada de transgressão grave que invalide seu chamado, e que os líderes da Igreja ainda não saibam. Evidentemente, tal acusação deve ser baseada na inexistência total de dúvidas e na existência definitiva de provas. Fora desta situação, ele deixa claro que o gosto (ou desgosto) pessoal, e sentimentos negativos de qualquer ordem, não são razões suficientes para levantarmos a mão em oposição a um chamado. Do mesmo modo, a mera desconfiança ou mesmo a certeza de imperfeições comuns a todos nós, ou possíveis erros e inconformidades de comportamento em relação ao evangelho, que possam ser observados pelos líderes com certa facilidade, também não constituem motivos para tal.

Se a perfeição na observância dos mandamentos fosse um requisito para o recebimento de um chamado na Igreja, certamente 100% dos cargos teriam estado vagos desde sempre, em todas as dispensações, à exceção apenas do “cargo” ocupado pelo Salvador Jesus Cristo, quando esteve em seu ministério mortal na Terra. Ao dizer isto, não estou validando a ideia de que os chamados podem ser ocupados sem quaisquer critérios que estabeleçam um filtro das condições de dignidade da pessoa. Na verdade, o Senhor estabeleceu Seus critérios e criou o filtro para a definição da dignidade dos membros de Sua Igreja: A recomendação para o templo.

Ser digno de uma recomendação para o templo não significa ser perfeito, mas indica que a pessoa está trilhando o caminho da perfeição, o caminho do convênio. Nas perguntas para se obter esta recomendação estão delineados os requisitos básicos – e não de perfeição – para que se ateste a dignidade de um membro da Igreja. A Igreja exige que o indivíduo seja digno de uma recomendação para o templo para, por exemplo, assumir um emprego em sua organização ou para ter acesso ao Fundo Perpétuo de Educação. Este mesmo filtro também é válido para estabelecer quem pode assumir certas responsabilidades eclesiásticas na Igreja, que são mais importantes que qualquer função empregatícia ou um empréstimo estudantil.

Poderia um Conselheiro no Bispado indigno de uma recomendação para o templo, julgar a dignidade de outra pessoa e assinar sua recomendação? Poderia um Presidente do Quórum de Élderes indigno de uma recomendação para o templo, guiar as famílias da Ala para que sejam dignas desta recomendação? Poderia um professor indigno de uma recomendação para o templo, “transmitir (…) [as] verdades do evangelho, [às pessoas} e guiá-las à retidão?(13). O profeta Alma ensinou: “E também, que em ninguém confieis para ser vosso mestre ou ministro, a não ser que seja um homem de Deus, que ande em seus caminhos e guarde os mandamentos.”(14).

Embora a questão do filtro da recomendação para o templo seja muito  relevante, ela diz respeito apenas àqueles que foram chamados pelo Senhor para conduzir os chamados na Igreja e não constitui, por si só, em razão para que se erga a mão em oposição ao chamado de alguém.

A quarta verdade a ser compreendida é de que não existe meio termo para quem faz convênios com o Senhor. Segundo as normas estabelecidas, ao pedir o apoio da congregação para uma pessoa que foi chamada para um cargo na Igreja, o líder do sacerdócio informa as duas opções para o voto: devem erguer a mão os que são a favor e os que se opõem. Abster-se de votar em uma destas posições não o isenta da responsabilidade de honrar seu compromisso de respeitar a vontade do Senhor. Na realidade, o coloca na posição de não ter respeitado esta vontade. Não votar não é deixar de ser contra o Senhor. É exatamente o contrário. Ele mesmo alertou: “Quem não é comigo é contra mim”(15).

Talvez alguns possam pensar que, se não têm uma razão justa para se oporem ao chamado de alguém, mas ainda assim não se sentem confortáveis em relação a quem está sendo chamado, podem simplesmente manter suas mãos abaixadas e tudo estará bem. Acreditam que isto é melhor do que manifestar-se publicamente contra o desígnio divino. Suas consciências podem ser confortadas com este engano, mas o Senhor, não. Quem se coloca contra a vontade do Senhor, se coloca a favor da vontade do inimigo.

O Presidente Joseph Smith ensinou: “Antes de filiar-se a esta Igreja você estava em solo neutro. Quando o evangelho foi pregado, o bem e o mal foram colocados diante de você. Você podia escolher um deles ou nenhum. Havia dois mestres adversários convidando-o para servi-los. Quando você se filiou à esta Igreja, você se comprometeu a servir a Deus. Ao fazê-lo, você saiu do solo neutro e jamais poderá voltar para lá. Se você abandonar o Mestre a quem se comprometeu a servir, será por instigação do maligno, e você seguirá o que ele disser e será servo dele.”(16)

O “muro” não é lugar para um Santo dos Últimos Dias, porque ele pertence ao inimigo. Aos que insistem em se manter nesta posição – de não tomar posição -, o Senhor disse: “Eu conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.”(17)

A quinta verdade a ser compreendida é que o que fazemos em nome do Senhor tem repercussões eternas e, por isso, não podemos fazê-lo levianamente. Quando erguemos nossa mão em sinal de concordância e aceitação da vontade do Senhor, é nosso dever manter o compromisso assumido e fazermos tudo o que pudermos para ajudar, abençoar e incentivar a pessoa chamada pelo Senhor. Declaramos nossa crença em sermos “honestos [e] verdadeiros”(18). Erguer a mão publicamente e negá-la em particular, é prestar “falso testemunho”(19).  

O Presidente George Albert Smith ensinou: “Espero que todos vocês se deem conta de que este é um privilégio sagrado. (…) Não se trata apenas de um símbolo, mas é uma indicação de que, com a ajuda do Senhor, vocês farão sua parte do trabalho.”(20).

Foi o Presidente Joseph F. Smith quem falou com extrema clareza sobre isso: “Algumas pessoas saem da reunião, depois de ter levantado a mão para apoiar as autoridades da Igreja, e não pensam mais nesse assunto, agindo em muitos aspectos como se simplesmente tivessem realizado uma ação externa à qual não dão a mínima importância. Creio que isso é errado. (…) Aqueles que fazem convênio de observar [os] mandamentos e depois quebram o convênio deixando de observá-los não são piores do que os que erguem a mão em sinal do convênio de apoiar as autoridades da Igreja e depois deixam de fazê-lo. O princípio é o mesmo nos dois casos: Trata-se de uma violação do convênio que fizemos.”(21). E ele completou: “É algo gravemente errado na presença do Todo-Poderoso alguém dar um voto de apoio às autoridades da Igreja e depois sair da reunião e opor-se a elas e desprezar os conselhos que elas dão. E seremos julgados pelo Senhor por isso.”(22).

A inconstância é um dos piores males que podem afligir uma pessoa. Mórmon, falando sobre os nefitas inconstantes, que em um momento diziam estar ao lado Senhor, mas logo partiam para fazer coisas contrárias aos mandamentos, os descreveu “como estrume sobre a face da terra.”(23) Devemos ser constantes, firmes em nossas ações e palavras, honrando, por meio de nossas obras, todo sinal que damos ao Senhor de fidelidade a Ele e à Sua obra. Somente assim poderemos receber as bênçãos eternas prometidas. O Presidente Brigham Young afirmou: “Se aceitarmos a salvação nos termos em que nos foi oferecida, teremos que ser sinceros em cada pensamento, reflexão e meditação; em nosso círculo de amigos; em nossos negócios; em nossas declarações e em todas as ações de nossa vida”(24).

Conclusão

Os Santos dos Últimos Dias sabem que Jesus Cristo é o cabeça de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Sendo essa a Sua Igreja, Ele chama Profetas e Apóstolos que, por sua vez, chama os Setentas. Os Apóstolos e os Setentas chamam os Presidentes de Estaca, que chamam os Bispos, que chamam os líderes e todos os que servem nas Alas. Esta sequência garante que a revelação e autoridade do sacerdócio são os responsáveis finais pelos chamados da Igreja.

“A fé precede o apoio”, disse o Élder Ulisses R. Soares (25). Sem fé, não é possível fazer o convênio com o Senhor de apoiar, sem reservas, aqueles que Ele escolheu para servir em Sua obra. Sem fé, não é possível confiar naqueles que fazem os chamados. Sem fé, não é possível confiar naqueles que são chamados. A fé é a chave para apoiar e verdadeiramente aceitar a vontade do Senhor quanto aos chamados em Sua Igreja verdadeira e viva.

Da próxima vez que você for convidado a erguer sua mão em sinal de apoio à vontade do Senhor em relação a um chamado, faça-o com vigor e sinceridade de coração, com o firme propósito de ajudar a quem foi chamado a cumprir sua designação no Reino. Isto é apoiar com lealdade!

Referências

(1) Números 27:18-20
(2) Atos 15:25
(3) D&C 20:65
(4) Guia para Estudo das Escrituras, “Comum Acordo”
(5) D&C 68:4
(6) Regras de Fé 1:5
(7) D&C 58:28
(8) Presidente Russell M. Nelson, “Apoiar os Profetas”, Conferência Geral, outubro de 2014
(9) Presidente Joseph Fielding Smith, Doutrinas de Salvação, vol. 3, p. 123
(10) Presidente Brigham Young, Documentary History of the Church, vol. 5, p. 521
(11) Moisés 4:2
(12) Presidente Joseph Fielding Smith, Doutrinas de Salvação, vol. 3, p. 124
(13) Guia para Estudo das Escrituras, “Ensinar, Mestre”
(14) Mosias 23:14
(15) Mateus 12:30
(16) Citado por Daniel Tyler, em “Recollections of the Prophet Joseph Smith”, Juvenile Instructor, 15 de agosto de 1892, pp. 491–492
(17) Apocalipse 3:15-16
(18) Regras de Fé 1:13
(19) Êxodo 20:16
(20) Presidente George Albert Smith, Conference Report, outubro de 1946, pp. 153–154
(21) Presidente Joseph F. Smith, Deseret News: Semi-Weekly, 14 de maio de 1895, p. 1
(22) Presidente Joseph F. Smith, “Discursos Selecionados Proferidos pelo Presidente Woodruff, Seus Dois Conselheiros, os Doze e Outros”, 4:298
(23) Mórmon 2:15
(24) Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Brigham Young, 1997, p. 293
(25) Church News, “What does it really mean to sustain Church leaders? Here’s what the Apostles say”, 9 de agosto de 2019

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