A mão do convênio

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Recentemente, em uma reunião do Sumo Conselho por meio de um aplicativo, comentei, em tom de brincadeira com os irmãos que, de acordo com o que eu via na tela, parecia que eu estava levantando a mão esquerda – e não a direita – em sinal de apoio, porque minha imagem aparecia invertida, como em um espelho, diferente da imagem que eu via dos irmãos. Logo teve início um breve e interessante debate sobre a questão “mão direita x mão esquerda” nas ordenanças e ritos da Igreja e eu usei, então, a expressão “a mão do convênio” para definir a razão do uso da mão direita. Tínhamos muitos assuntos a tratar e, por isso, aquela conversa não programada não durou mais que dois ou três minutos, mas, a partir dela, decidi escrever este artigo, com o propósito de tratar deste importante tema, de que o Senhor estabeleceu a mão direita como a mão do convênio, a mão que simboliza suas bênçãos para nós.

Tanto nas escrituras como nas ordenanças, há gestos simbólicos, com significados especiais. Muitos desses gestos simbólicos possuem correlação com os convênios que fazemos. Existe um simbolismo no fato de o braço direito e a mão direita serem referidos como “do convênio”. Aprender sobre isso nos ajudará a reconhecer este simbolismo e nos dará maior visão sobre as ordenanças e convênios que realizamos. Estar ao lado direito do Senhor é um símbolo da nossa condição de dignidade em relação aos nossos deveres para com o Senhor. Utilizar a mão do convênio nas ordenanças e ritos do evangelho é um símbolo de nosso entendimento de que estamos ao lado direito do Senhor.

Na parábola das ovelhas e dos bodes, Ele pôs “as ovelhas à sua direita, mas os bodes, à esquerda.” E continuou: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. (…) Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.”(1) Aqueles que fazem e mantém convênios, estarão ao lado direito do Senhor. A direita é um símbolo de convênios realizados e honrados.

Falando sobre convênios e sua relação com a mão direita, o rei Benjamin ensinou: “Quisera, portanto, que tomásseis sobre vós o nome de Cristo, todos vós que haveis feito convênio com Deus de serdes obedientes até o fim de vossa vida. E acontecerá que aquele que fizer isto se encontrará à mão direita de Deus, porque saberá o nome pelo qual é chamado; porque será chamado pelo nome de Cristo.”(2) E alma ouviu do próprio Senhor: “E quem quer que recebas, acreditará em meu nome; e a esse eu perdoarei liberalmente. Porque sou eu que tomo sobre mim os pecados do mundo; porque fui eu que criei o homem; e sou eu que concedo, ao que acredita até o fim, um lugar à minha mão direita.”(3)

“A referência mais antiga que temos da superioridade da mão direita sobre a esquerda, em uma bênção, é encontrada na [passagem da] bênção de Jacó aos seus dois netos, Efraim e Manassés”(4) Quando José levou seus filhos para receberem a bênção das mãos do grande patriarca, ele os colocou diante de seu pai de modo que Manassés, o primogênito, ficou à frente de sua mão direita e Efraim, o mais novo, ficou à frente de sua mão esquerda. Porém, algo muito importante aconteceu, porque “Israel estendeu a sua mão direita, e a pôs sobre a cabeça de Efraim, ainda que fosse o menor, e a sua esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as suas mãos propositadamente, ainda que Manassés fosse o primogênito.”(5) Observe a palavra “propositadamente”. Significa que, ao cruzar as mãos de modo a colocar a mão direita sobre Efraim e a mão esquerda sobre Manassés, Jacó não agiu de modo despretensioso ou equivocado, mas com o objetivo claro de dar a bênção maior ao mais jovem dos irmãos. A mão direita simbolizava esta bênção.

O Presidente Joseph Fielding Smith disse: “Antes, quando Abraão enviou seu servo aos parentes de Abraão para encontrar uma esposa para Isaque, ele fez com que o servo colocasse a mão embaixo da coxa (de Abraão), e jurou a ele que cumpriria sua missão (Gênesis 24:1-9). Evidentemente, essa era a mão direita do servo.”(6) E ele completou: “É costume estender a mão direita em sinal de comunhão (Gálatas 2:9). A mão direita é chamada de destra, e a esquerda, a sinistra; destro significa direita e sinistro significa esquerda. Destro, ou direito, significa favorável ou propício. Sinistro está associado ao mal, e não ao bem, sinistro significa perverso”(7)

Um de nossos hinos mais conhecidos, diz: “Se Deus é convosco, a quem temereis? Ele é vosso Deus, seu auxílio tereis. Se o mundo vos tenta, se o mal faz tremer, Com mão poderosa, Com mão poderosa, Com mão poderosa vos há de suster.”(8) Quando verificamos as escrituras de referência no rodapé deste hino, encontramos Isaías 41:10, na qual o Senhor diz a Seu povo: “Não temas, porque eu estou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça.”(9) A “destra da minha [do Senhor] justiça” é a “mão poderosa” que cantamos no hino, com confiança.

Em quase todas as ordenanças, utilizamos apenas o braço ou a mão direita. “O costume, evidentemente por orientação divina, desde os primórdios, tem sido associar a mão direita com prestar juramentos e com testemunhar ou reconhecer obrigações. A mão direita foi usada, preferencialmente à mão esquerda, ao oficiar em ordenanças sagradas, nas quais apenas uma mão é usada”(10), disse o Presidente Joseph Fielding Smith.

Quando alguém é batizado, o portador do sacerdócio que realiza a ordenança “ergue o braço direito em ângulo reto”(11). A mesma mão direita é utilizada em certas ordenanças templárias, tanto para vivos como para falecidos.

Mesmo em algumas ordenanças ou nas bênçãos, nas quais se utilizam as duas mãos, há uma particularidade sobre a mão direita. Quando uma pessoa está sendo abençoada, designada ou ordenada por vários portadores do sacerdócio, estes devem colocar apenas a mão direita sobre a cabeça da pessoa – ou sob o bebê, no caso da ordenança para dar nome e bênção a crianças, ou para quaisquer bênçãos. Nesses casos, “cada um deles deve colocar levemente a mão direita sobre a cabeça da pessoa (ou colocá-la sob o bebê a ser abençoado) e a mão esquerda no ombro do irmão à sua esquerda.”(12)

No voto de apoio, também o braço direito está presente. Embora isto não esteja determinado em qualquer norma escrita, é o braço direito que erguemos quando apoiamos alguém para receber um chamado ou o sacerdócio, ou para renovarmos esse apoio em conferências de ala, estaca ou geral. O Élder David B. Haight, afirmou: “levantaremos a mão direita para apoiar os oficiais da Igreja”(13) E o Presidente N. Eldon Tanner disse: “Os que votam em apoio levantam seus braços direitos em ângulo reto, como testemunho de que apoiam os oficiais nos quais votam.”(14)

Em 2008, o Élder Robert D. Hales ensinou: “Assim como vocês, agradeço por ter participado da assembleia solene. Gostaria, no entanto, de compartilhar um ponto doutrinário a respeito. Quando erguemos nosso braço em ângulo reto na assembleia solene, não só demos nosso apoio, mas hipotecamos um compromisso pessoal e particular, um convênio, de apoiar e defender as leis, ordenanças, mandamentos e o Profeta de Deus, o Presidente Thomas S. Monson. Foi um privilégio participar junto com vocês e erguer a mão direita em apoio.”(15)

Especialmente no sacramento, é com a mão direita que o diácono serve e é com a mão direita que os membros tomam os emblemas sagrados do pão e da água. “Tomamos o sacramento com a mão direita”, ensinou o Presidente Joseph Fielding Smith.(16)

O Presidente Russell M. Nelson explicou o contexto doutrinário da relação entre a mão direita e o sacramento. Ele disse:

“Quando Raquel estava morrendo de dor no parto, ela deu ao seu novo filho o nome de Benoni, que em hebraico significa “filho da minha tristeza” ou “angústia”. Mas o marido enlutado, Jacó (Israel), mudou o nome do filho recém-nascido, talvez para evitar uma referência repetida à sua luta e morte cada vez que o nome do filho fosse pronunciado. O nome que ele escolheu foi Benjamin, que em hebraico significa “Filho da mão direita” (Ver Gênesis 35:16–19). O grande amor de Israel por sua amada Raquel foi significado por essa designação especial dada a Benjamin, seu décimo segundo filho.

(…) Em latim, destro (à direita) e sinistro (à esquerda) não apenas indicavam a direita e a esquerda, mas tornaram-se as raízes dos adjetivos com conotações favoráveis e desfavoráveis. O uso da mão direita como gesto simbólico foi estendido à administração de juramentos governamentais e ao tribunal, quando testemunhas são chamadas para testemunhar sob juramento. Com esse pano de fundo, podemos agora focar na questão de qual mão usar ao participar do sacramento.

A palavra sacramento vem de duas raízes latinas: sacr significa “sagrada” e ment significa “mente”. Implica pensamentos sagrados da mente. (…) Ainda mais convincente é a palavra latina sacramentum, que literalmente significa “juramento ou obrigação solene”. A participação no sacramento pode, portanto, ser encarada como uma renovação pelo juramento do convênio previamente feito nas águas do batismo. É um momento mental sagrado, incluindo (1) um juramento silencioso manifestado pelo uso da mão, símbolo do convênio do indivíduo, e (2) pelo uso de pão e água, símbolo do grande sacrifício expiatório do Salvador do mundo.

A mão usada para participar do sacramento seria logicamente a mesma mão usada para fazer qualquer outro juramento sagrado. Para a maioria de nós, essa seria a mão direita. No entanto, os convênios sacramentais – e outros convênios eternos – podem ser e são feitos por aqueles que perderam o uso da mão direita ou que não têm mãos. Muito mais importante do que a preocupação sobre qual mão é usada na participação do sacramento é que o sacramento seja tomado com uma realização profunda do sacrifício expiatório que o sacramento representa.

Às vezes, os pais se preocupam com a mão que seus filhos usam para participar do sacramento. Como meio de educação, preparação e treinamento, às crianças não batizadas na Igreja é oferecido o sacramento “para prefigurar o convênio que assumirão quando chegarem nos anos de prestação de contas” (Bruce R. McConkie, Mormon Doctrine, 2ª ed., Salt Lake City: Bookcraft, 1966, p. 660). Portanto, é muito importante que eles desenvolvam um bom sentimento e uma atitude mental sagrada sobre o simbolismo e o significado do sacramento. Os pais que desejam ensinar a importância dessa experiência sagrada podem tornar o assunto parte da instrução da noite familiar. Então, se um lembrete se tornar necessário em uma reunião, ele poderá ser feito em silêncio, com paciência e amor.

Participar do sacramento é um processo mental sagrado e, como tal, torna-se muito pessoal para mim. Penso nos convênios feitos entre mim e a Deidade quando as orações são pronunciadas. Penso em Deus oferecendo Seu Filho Unigênito. Penso no sacrifício expiatório de meu Salvador, Jesus Cristo. O sacramento foi instituído por Ele. Para toda a humanidade, mesmo a mim, ele ofereceu Sua carne e sangue e designou o pão e a água como emblemas simbólicos. Por ter a mão direita, ofereço-a ao participar do sacramento e como juramento de que sempre lembrarei de Seu sacrifício expiatório, levarei Seu nome sobre mim e lembrarei Dele, e guardarei os mandamentos de Deus. Este é um privilégio sagrado para todos os Santos fiéis a cada Dia do Senhor.”(17)

Recentemente, a Igreja anunciou o novo Manual Geral: Servindo em A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, disponível apenas online e, por enquanto, em uso apenas nos países de língua inglesa. É significativo que neste manual, publicado sob a liderança do Presidente Russell M. Nelson, exista uma declaração clara sobre o uso da mão direita no sacramento: “Os membros partilham com a mão direita, quando possível.”(18)

Não importa se alguém é canhoto ou destro, quando a mão direita é utilizável, ela deve ser usada nas ordenanças sagradas. É importante que todos aprendam e saibam que há uma “mão do convênio”, que simboliza nossa relação de fidelidade para com o Senhor. Talvez alguns questionem: “Que diferença faz a mão que eu uso nas ordenanças – incluindo o sacramento?” E talvez outros racionalizem: “O que importa é que eu acredite na importância dos convênios, não importa a mão que eu use!” Bem, é tudo uma questão de estarmos dispostos a fazer as coisas como elas devem ser feitas – ou não. Quando temos o conhecimento, é esperado que nossas ações sejam de acordo com esse conhecimento.

No Apocalipse, lemos: “E tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma afiada espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece. E eu, quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; eu sou o primeiro e o último”(19) Esta escritura fala do Salvador Jesus Cristo. A destra citada duas vezes nestes versículos é a “mão do convênio e símbolo de poder. Cristo segura as sete igrejas em Sua mão direita.”(20)

Que possamos aprender sobre as questões doutrinárias que envolvem os muitos símbolos do evangelho de Jesus Cristo, mesmo os símbolos que estão em nosso corpo. A nossa mão, o nosso braço, a nossa mente e o nosso coração são exemplos destes símbolos sagrados aos quais devemos honrar. A “mão do convênio”, em especial, nos lembra do grande amor que nosso Pai Celestial e Seu filho Jesus Cristo, têm por nós, ao nos permitirem fazermos convênios sagrados que poderão nos levar à Sua presença, em glória eterna.

Referências

(1) Mateus 25:31-46
(2) Mosias 5:8-9
(3) Mosias 26:22-23
(4) Presidente Joseph Fielding Smith, Bruce R. McConkie, Doutrinas de Salvação, volume 3 (1956), 107-108.
(5) Gênesis 48:13-14
(6) Presidente Joseph Fielding Smith, Bruce R. McConkie, Doutrinas de Salvação, volume 3 (1956), 107-108.
(7) Presidente Joseph Fielding Smith, Bruce R. McConkie, Doutrinas de Salvação, volume 3 (1956), 107-108.
(8) “Com Firme Alicerce”, Hinos, 42, Atribuído a Robert Keen, Incluído no primeiro hinário da Igreja, em 1835.
(9) Isaías 41:10
(10) Presidente Joseph Fielding Smith, Bruce R. McConkie, Doutrinas de Salvação, volume 3 (1956), 107-108.
(11) Manual 2: Administração da Igreja, “Ordenanças e bênçãos do sacerdócio, Batismos e confirmação, Instruções para a realização de um batismo”, 20.3.8
(12) Manual 2: Administração da Igreja, “Ordenanças e Bênçãos do Sacerdócio, Instruções Gerais, Participação em Ordenanças e Bênçãos”, 20.1.1
(13) Élder David B. Haight, “Fé, Devoção e Gratidão”, Conferência Geral de abril de 2000
(14) Presidente N. Eldon Tanner, “A Assembleia Solene”, Conferência Geral, abril de 1974
(15) Élder Robert D. Hales, “Obter um Testemunho de Deus, o Pai, de Seu Filho Jesus Cristo e do Espírito Santo”, Conferência Geral de abril de 2008 (Tradução livre do original em inglês. A tradução oficial para o português traz a frase “erguer o braço em apoio” traduzida do original “raising my right hand to the square”).
(16) Presidente Joseph Fielding Smith, Bruce R. McConkie, Doutrinas de Salvação, volume 3 (1956), 107-108.
(17) Presidente Russell M. Nelson, “I Have a Question; Is it necessary to take the sacrament with one’s right hand? Does it really make any difference which hand is used?”, Ensign, março de 1983
(18) Manual Geral: Servindo em A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, “O Trabalho de Salvação e Exaltação, O Sacramento, Instruções”, 18.9.4
(19) Apocalipse 1:16-17
(20) Manual do Aluno do Instituto – Novo Testamento, Cursos de Religião 211–21

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