5 lições que aprendi em 50 anos de espera

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Este artigo foi publicado exatamente 50 horas após o jogo entre o Bahia e o Atlético Mineiro, válido pela 32ª rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol 2021, que terminou com a vitória do Atlético Mineiro por 3 gols a 2, resultado que deu ao time mineiro o segundo título do campeonato nacional.

Sim, sou atleticano mineiro. Não, o texto a seguir não é sobre futebol. Após toda a euforia pela conquista, refleti sobre como nossa vida se parece com essa jornada atleticana. Quero apresentar aqui 5 lições que aprendi durante a minha longa espera de 50 anos!

1 – Às vezes, as bênçãos parecem demorar. Continue sendo grato. É só o que importa.

O Clube Atlético Mineiro conquistou o campeonato brasileiro pela segunda vez em sua história. A primeira vez foi em 1971. Eu nasci em 1971 e não havia ainda completado 50 dias de vida quando “vi” o Galo ser campeão. Agora, com meus recém completados 50 anos de idade, vi o Galo ser bicampeão. Como sou grato pela bênção de viver esse momento pela segunda vez em minha história. Sou bicampeão!

Foram 50 anos! 5 décadas! 50 voltas da minúscula e bela Terra em torno do colossal e brilhante sol, até que esse momento chegasse novamente. Uma espera tão longa – toda uma vida! -, poderia ter um efeito desanimador. Poderia, se eu permitisse. Não permiti. Não aceitei a sensação de ter perdido o bonde da história, como se o título não pudesse mais ser alcançado. Ao contrário, continuei confiante, grato por ser atleticano e isso me confortava.

Em nossa vida, às vezes vemos as horas, os dias, os meses, os anos e mesmo as décadas passarem sem que alcancemos alguns de nossos maiores objetivos. Em certos momentos chegamos mesmo a sentir que está “tudo demorando em ser tão ruim”1Caetano Veloso, “Desde que o samba é samba”, Gravadora Polygram, agosto de 1993.

É verdade que há certos desejos justos que não chegam no tempo que queremos. Mas sempre chegam no tempo que o Senhor quer. Reconhecer que Ele é o Senhor de nossa vida, fonte de tudo o que temos e possui a prerrogativa de decidir com o que, quando e como nos abençoar, nos dará a humildade necessária para continuarmos confiantes, e sermos gratos por sermos Seus filhos. No final, é isso o que devemos cultivar e manter em nossa mente e em nosso coração, porque é só isso o que realmente importa.

2 – Não permita ser controlado por suas emoções. Seja emocionalmente autossuficiente.

A jornada desde o primeiro até o segundo título brasileiro do Atlético Mineiro foi, para mim, cheia das mais variadas emoções: o orgulho de, ainda criança, vestir o uniforme listrado em preto e branco para ir jogar bola na rua. A tristeza convertida em choro nas derrotas injustas. A alegria sem tamanho nas muitas vitórias alcançadas.

Vivi o sofrimento de ver o Galo “bater na trave” e ser vice-campeão 5 vezes ao longo das décadas, tendo sido o único vice-campeão invicto da história, em 1977, algo inexplicável. Vivi a angústia pela injustiça na lamentável eliminação da Copa Libertadores de 1981. Vivi a decepção de ver o time ser rebaixado para a segunda divisão em 2005, além de vários outros momentos muito frustrantes.

Em contraponto, vivi a satisfação do retorno do time ao grupo de elite em 2006, trazendo na bagagem o título de Campeão Brasileiro de Futebol da Segunda Divisão, bem ao estilo “veni, vidi, vici”2Júlio César, 47 a.C., descrevendo sua vitória sobre Fárnaces II do Ponto na Batalha de Zela. Vivi o êxtase da conquista da Copa Libertadores da América em 2013, com um time que jogava como uma orquestra e alcançou o posto de melhor da América do Sul. Vivi o prazer da conquista da Copa do Brasil em 2014, além de vários outros momentos muito felizes.

Vi, vivi e senti todas essas emoções. Embora seja certo que, se continuarmos firmes em nossos desejos justos, alcançaremos a vitória, a jornada da vida é sempre cheia de momentos que podem nos estimular ou nos desestimular. Porém, as circunstâncias não definem nosso caminhar. Permanecer firme, invariável, inabalável a despeito das circunstâncias e das emoções vividas, é o que nos torna emocionalmente autossuficientes. Sentiremos as emoções, sejam tristezas profundas ou alegrias imensuráveis. Mas permaneceremos focados em quem somos, não em como estamos. As emoções não nos controlam, se não permitirmos a elas que nos controlem.

É claro que não estou afirmando que o controle das emoções seja algo simples ou para o que não haja um preço a pagar. Sei o que é ser tomado por um sentimento incapacitante, um temor avassalador, uma ansiedade desmedida. Porém, sei que o poder do sacrifício expiatório de Jesus Cristo tem a capacidade de nos curar, se o permitirmos. As bênçãos do sacerdócio, a oração em humildade profunda, o permitir sinceramente que o Senhor tome conta de nossa vida, ao Seu modo, têm o poder de nos trazer de volta à vida real se estivermos nas sombras da tristeza pelas derrotas que experimentamos na vida, ou se estivermos flutuando na soberba nos momentos de vitórias.

Ao agirmos assim, alcançamos mais espiritualidade, pois, como nos ensinou o presidente David O. McKay, “a espiritualidade é a consciência da vitória sobre si mesmo”.3Presidente David O. McKay. Gospel Ideals (1953), p. 390

3 – Seja leal e fiel a quem você prometeu lealdade e fidelidade.

Sou sergipano, mas, ainda bem criança, morei em Minas Gerais, estado do Atlético Mineiro, e descobri que eu sou Galo (Aqui é Galo!). Meu pai, flamenguista, ao ver minha identificação com o alvinegro mineiro, me deu uma camisa do time. Fiz o mesmo com meu filho, flamenguista.

Embora eu tenha morado vários anos em Minas Gerais, deixei o estado aos 15 anos de idade e nunca mais retornei. Já são 35 anos sem ir ao estado do meu time! Mesmo na infância e parte da adolescência, quando estava em Minas, morava no interior e, por isso, só uma vez na vida tive a oportunidade de ir ao Mineirão assistir o Atlético jogar. Vou repetir: uma única vez em toda a minha vida eu estive em um estádio para ver meu time jogar!

Como manter-se leal e fiel por 50 anos, estando tão distante? Isso só é possível quando existe amor e propósito. Quando criança, o amor pelo Galo foi algo natural, sem qualquer chance de dúvida ou arrependimento. Um amor que foi crescendo ao longo dos anos. De 50 anos! Eu tinha (tenho!) o propósito de honrar o legado do time que amo e perpetuar suas cores, seus símbolos, sua história!

O amor e o propósito são a chave para nos mantermos leais e fiéis à nossa jornada! Alimentarmos esse amor e mantermos em foco esse propósito, são essenciais para continuarmos a jornada com alegria e esperança.

Na vida, prometemos lealdade e fidelidade aos nossos pais, ao nosso cônjuge, aos nossos filhos, ao nosso país e a muitas outras pessoas e instituições. Devemos honrar nosso voto de lealdade e fidelidade, não importa o tempo, não importam as circunstâncias, não importa o custo, exceto um: nosso voto de lealdade e fidelidade ao Senhor, porque seja o que for que custe nosso relacionamento com o Senhor, é algo caro demais. A Ele devemos nossa mais profunda lealdade e fidelidade. A Ele devemos dedicar nosso amor mais profundo. O maior propósito de nossa vida deve ser nos tornarmos como Ele é!

4 – Reconheça e honre os esforços dos outros em seu favor.

Uma pessoa me perguntou para qual time eu torço. Respondi que não torço para nenhum time: sou atleticano! Sim, o Atlético não tem torcedores, tem atleticanos. É uma sutil – mas importante! – diferença. Ser atleticano é muito maior que meramente torcer. É muito maior que ser campeão ou bicampeão. O atleticano ama, na verdade, ser atleticano, viver sua atleticanidade. Nós, atleticanos, temos o Atlético e isso nos basta!

Mas, é claro que gostamos de títulos! É claro que gostamos de taças! Queremos todas que pudermos ter por merecimento! Para isso, sempre contamos com o talento, a garra e o compromisso de jogadores que honraram a camisa alvinegra: João Leite, Toninho Cerezo, Paulo Isidoro, Osmar Guarneli, Luisinho, Jorge Valença, Éder, Dadá Maravilha e o rei Reinaldo! Tafarel, Vitor, Leonardo Silva, Guilherme, Tardelli, Réver, Jô, Bernard, Luan e o mágico Ronaldinho Gaúcho! Éverson, Jair, Sasha, Vargas, Nacho, Zaracho, Keno, Arana, Diego Costa e o incrível Hulk! E como esquecer os técnicos mestres Telê Santana, Levir Culpi e Cuca? Impossível!

Reconhecer e honrar os esforços de outras pessoas em nosso favor é uma das maiores bênçãos que podemos conceder a nós mesmos. Muitos nos ajudaram, muitos nos ajudam e muitos nos ajudarão em nossa jornada. Pais, familiares, amigos, professores, líderes religiosos e todos aqueles que usam seus talentos, sua força e seu compromisso para que alcancemos o título de campeões na vida!

Na verdade, estamos aqui porque já fomos campeões antes, na pré-existência. Vencemos nosso primeiro estado e recebemos o prêmio de vivermos aqui para nos aperfeiçoarmos e recebermos a bênção de estarmos ao lado do nosso Pai Celestial. Ao final dessa vida, seremos bicampeões! Quanto tempo leve, o quão difícil seja, não importa. Sempre haverá alguém que torce por nós, que nos aconselha, que nos serve, que ora por nós. Reconheçamos e honremos essas pessoas!

5 – Acredite sempre!

Em 2013 o mundo conheceu o lema do atleticano: “Eu acredito!”. Não era da boca para fora. Era uma expressão sincera da confiança que depositávamos naquela equipe. O sentimento pessoal da crença, manifestado publicamente pelas palavras a plenos pulmões e pela ação, gerou uma onda coletiva que tomou conta de todos os atleticanos. Éramos um em nossa crença, em nossa confiança, um com o time, como se fossemos o 12º jogador em campo.

Precisamos acreditar! Precisamos colocar nossa confiança em nós mesmos, nas pessoas que nos amam, nas pessoas que amamos e, especialmente, em nosso Salvador e Redentor. Quando expressamos essa crença, essa fé, publicamente, quando testificamos do que sabemos, quando exercitamos e praticamos o que sabemos, geramos em nós mesmos e no outro o sentimento de pertencimento. Muito mais que meros simpatizantes ou torcedores, devemos desenvolver o sentimento de que somos parte do todo. Esse sentimento só é possível quando nos colocamos efetivamente como parte do todo, em ação, porque, como bem sabemos “a fé, se não tiver as obras, está morta em si mesma”4Tiago 2:17.

O adversário tenta nos fazer calados, quietos, inertes diante de toda a obra necessária de ser feita. Ele sabe que não poderá ganhar o campeonato. Mas ele quer inutilizar os que estão ao lado do Senhor.

O Élder Dieter F. Uchtdorf ensinou que “ser discípulo não é um esporte para espectadores. Não podemos esperar receber as bênçãos da fé ficando inativos na arquibancada, do mesmo modo que não recebemos os benefícios da saúde sentados no sofá assistindo a eventos esportivos na televisão e dando conselhos aos atletas. No entanto, alguns consideram preferível ser “discípulos de arquibancada” e, por vezes, até fazem dessa sua principal forma de adoração. Nossa religião é de ação, não de observação. Não podemos receber as bênçãos do evangelho simplesmente observando o bem que outras pessoas fazem. Precisamos sair da arquibancada e praticar o que pregamos.”5Dieter F. Uchtdorf, “O Caminho do Discípulo”, conferência geral, abril de 2009

Que possamos fazer mais, a despeito de toda a oposição do adversário. Nosso time já é campeão desde antes do início do campeonato. Resta-nos decidir: estamos dispostos a continuar no time, firmes na paciência e na fé, mesmo que a vitória final ainda demore mais 50, 80 ou 100 anos?

Referências
Referências
1 Caetano Veloso, “Desde que o samba é samba”, Gravadora Polygram, agosto de 1993
2 Júlio César, 47 a.C., descrevendo sua vitória sobre Fárnaces II do Ponto na Batalha de Zela
3 Presidente David O. McKay. Gospel Ideals (1953), p. 390
4 Tiago 2:17
5 Dieter F. Uchtdorf, “O Caminho do Discípulo”, conferência geral, abril de 2009

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